MANIFESTAÇÃO DE 7 DE SETEMBRO EM MANAUS DEVERÁ ACONTECER PRINCIPALMENTE NA PONTA NEGRA, APESAR DO RACHA NA DIREITA LOCAL.

Manaus, vergonhosamente, será a única capital do Brasil a realizar a manifestação de 7 de setembro em duas localidades: uma no centro, outra na Ponta Negra.

Organizadores do evento do centro, encabeçado por um ex-militar autodenominado “zero-um” do Bolsonaro, tentaram justificar o cisma por meio de uma negativa da prefeitura à realização do ato na Ponta Negra, devido à pandemia, e de um documento do IMPLURB proibindo a manifestação na área.

O subterfúgio, todavia, foi prontamente refutado pelo empresário Romero Reis, um dos responsáveis pelo ato da Ponta Negra. Romero garantiu que a manifestação possui sim autorização para realizar-se no local, tanto por parte do IMPLURB, quanto pela Prefeitura de Manaus.

Em verdade, o desencontro deveu-se a uma disputa de egos entre o “Messias” da Hileia, cujo único estandarte político é ser amigo do presidente, e o deputado federal Capitão Alberto Neto.

Percebendo que, em meio a tantas estrelas da direita amazonense, o “mitinho” baré não teria o protagonismo desejado para alçar-lhe ao cargo de senador, seus cabos eleitorais optaram por sair à francesa e brincar sozinhos na Praça do Congresso, como birrentos pré-púberes.

Para piorar, agindo como os camisas-marrons de Hitler, chegaram a apelar para o envio de mensagens em tom de ameaça a organizadores do evento da Ponta Negra, depois de perceberem maior adesão popular à concorrência.

Mantendo o baixo nível de militância, beirando o padrão Rêmulos Club, um dos líderes do grupo do centro chegou a afirmar que anda na mira de Alexandre de Moraes, visando justificar possível ausência no encontro organizado por ele mesmo. A evasiva estampa-se-lhe nas redes sociais como atestado de megalomania, já que um ativista com capilaridade inferior à de bebuns do Bar do Armando jamais se tornaria alvo de um ministro do STF. Psicose ou receio de encarar o povo?

Quando recebi a estpantosa notícia da luta em duas frentes, que nos campos de batalha sempre acaba em derrota, pensei tratar-se de “fake news”, porque tamanha estupidez estratégica jamais poderia partir de um ex-militar de alta patente. No entanto, para ingrata surpresa, descobri que a parvoíce procedia. Nada imprevisível, vindo de quem outrora pilotou helicópteros que hoje ousam voar em tempestades de vento. Prudência conservadora!

A imagem passada para a maior parte da população manauara, que assiste à novela com olhos incrédulos, é a de que os organizadores do ato do centro, de fato, não se preocupam com os anseios do povo brasileiro, mas apenas com canais para direcioná-los a cargos de confiança na política local.

Usando a máxima “acuse-os do que você faz, chame-os do que você é”, e com a desfaçatez de sempre, asseclas da cópia mal acabada do “mito” tentam colar a alcunha de “trampolim eleitoral” no movimento rival, pecha que sempre lhes caiu como uma luva e ainda lhes cai, pois a trupe agora vem flertando com o governador Wilson Lima em busca de apoio para as eleições de 2022.

Além do mais, o deputado estadual Fausto Júnior (PRTB/AM), cuja imagem tem aparecido em fotos recentes ao lado de Eduardo Braga, já confirmou presença na Praça do Congresso. Definitivamente, o evento não parece condizer com um grupo orgulhoso de não caminhar com nenhum político.

Desta vez, contudo, o tiro saiu pela culatra, irritando os chamados não-militantes: o médico, o comerciante, a dona de casa, o engenheiro, o advogado, o pequeno empresário, o contador, a enfermeira, o bancário e todos aqueles que pretendem deixar de curtir o feriado para lutar por um país melhor. Esses já perceberam as reais intenções de cada movimento e, por isso, certamente irão à Ponta Negra. Os “black blocs” de direita ocuparão as ruas do centro.

André Paschoal é médico e escritor.

MANIFESTAÇÃO DE 07 DE SETEMBRO EM MANAUS PODE SER MARCADA POR RACHA NA DIREITA

Manaus

As manifestações de 7 de setembro na capital amazonense, pelo que parece, serão marcadas por um racha na direita local. Haverá dois pontos de reunião: um, divulgado pelo Movimento Conservador Amazonas, dar-se-á na Praça do Congresso, no centro da cidade, às 15 horas; o outro, promovido pela Aliança Norte Brasil e pelo o Movimento Direita Amazonas, ocorrerá em frente ao anfiteatro da Ponta Negra, no mesmo horário.

O desencontro, no entanto, pode dever-se a uma negativa do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (IMPLURB) à realização da passeata na área da Ponta Negra, o que obrigou o Movimento Conservador Amazonas a alterar o local de realização do evento.

Há relatos, todavia, de que políticos da direita amazonense, juntamente com o empresário Romero Reis, entraram em contato com Carlos Valente, diretor do órgão, logo em seguida à negativa, tendo conseguido a aprovação no dia seguinte.

Mesmo assim, o Movimento Conservador Amazonas, encabeçado pelo empresário Sérgio Kruke, não voltou atrás da decisão de manifestar-se no centro da cidade, tendo inclusive soltado algumas farpas contra os organizadores do evento da Ponta Negra, acusando-os de atuar como trampolim político para potenciais candidatos às eleições de 2022, como Chico Preto, Delegado Péricles, Capitão Carpê e outros.

O Coronel Alfredo Menezes, ex-superintendente da SUFRAMA e possível candidato ao Senado Federal em 2022, sob forma de justificativa, postou em suas redes sociais outro documento, este da Prefeitura de Manaus, negando o pedido de manifestação na Ponta Negra devido à medida provisória por conta da pandemia (lei 14.186/21). Só não se entende o porquê do impedimento aos atos na Ponta Negra e da liberação dos mesmos na Praça do Congresso. Seria o centro de Manaus uma área asséptica?

O vice-presidente do Movimento Aliança Norte Brasil, Júlio Nunes, diz que não há divisão nenhuma na direita manauara e vê com bons olhos a realização de manifestações tanto no centro da cidade quanto na Ponta Negra. Segundo ele, quanto mais espaços a direita ocupar, menos terreno deixará para a esquerda. Quanto à acusação de uso do evento como trampolim político para determinados candidatos, Júlio Nunes diz que essa não é a intenção do movimento e que, por ser um ato democrático, não pode impedir ninguém de exercer seu direito de manifestar-se no dia 7, nem mesmo os políticos citados. Quem quiser ir, será bem-vindo.

O ex-vereador Chico Preto (sem partido) tampouco acredita em divisão dos conservadores. Pelo contrário, acredita que a direita tem aperfeiçoado seu caminho, sem apostar em aventuras ou no duvidoso. Segundo ele, o Brasil e o Amazonas têm pressa em crescer. Por isso, a direita tem unido-se em torno da experiência, dos bons currículos e de bons caminhos. “É natural que, nessa construção, outros caminhos apresentem-se, mas o que está acontecendo é uma união consciente de homens e mulheres que dividem o mesmo propósito: que o sol da liberdade siga brilhando para o Brasil”, conclui.

O presidente do movimento Direita Amazonas, Silvio Rodriguez, que se encontra no interior do estado, diz que pode ter ocorrido falha de comunicação. Entretanto, “todos têm livre arbítrio de escolher onde achar melhor manifestar-se, seja na Ponta Negra, seja no centro. Ambos possuem o mesmo objetivo: apoiar o ato solicitado pelo presidente Jair Bolsonaro”, afirma. Segundo ele, o movimento Direita Amazonas comparecerá à Ponta Negra no dia 7 de setembro, conforme anunciado nas redes sociais desde o dia 4 de agosto.

A julgar pelos comentários e publicações nas redes sociais, maioria das pessoas tenderá a optar pela Ponta Negra mesmo, já que o local tem sido palco de todas as manifestações de direita em Manaus desde os tempos do “Fora Dilma”.

De qualquer forma, apesar do racha, o movimento em Manaus tem conseguido boa adesão popular. Talvez até tenhamos os dois locais cheios, afinal, a população não irá às ruas pelos políticos A ou B, mas pela liberdade que lhe vem sendo extirpada a cada dia, a olhos vistos, por semi-deuses que se julgam donos das instituições.

André Paschoal é médico e escritor.

VENEZUELA NA VOZ DOS QUE PARTIRAM

Depois que me casei com uma venezuelana, minha casa tornou-se espécie de ponto de parada de refugiados em trânsito. No percurso Boa Vista-Manaus-São Paulo, quem possui algum laço de amizade com ela, acaba na nossa sala, tomando um café, enquanto espera pelo voo de conexão. Nessas ocasiões, de papo fluido, pipocam histórias as mais variadas. O último desses encontros deu-se com um gineco-obstetra que decidiu tentar a vida no Brasil.

__Por que veio para cá? Perguntou-lhe minha esposa. Você não estava empreendendo na Venezuela?

__Montamos um consultório eu, minha esposa, que é pediatra, e um amigo anestesista. Estava dando cada vez mais lucro mas, a cada dia, o dinheiro valia menos. A gente trabalhava demais e o dinheiro não rendia, não dava.

—Lembro-me de quando saí de lá. A crise não estava tão forte assim, mas eu já previa o que aconteceu. A queda é repentina. O que vai bem, de repente desaba. E eu via o Brasil no mesmo caminho durante o governo Dilma. Tudo corria bem, todo mundo feliz, bastou ela se reeleger e zás! Colapso abrupto na economia.

—Pois é. Mas os brasileiros trataram logo de dar fim nessa mulher. Na Venezuela, ninguém derruba o governo.

—Maduro tem aliança com os militares.

—Claro. Coisa que o PT não tinha.

__Até tentou, ponderei, mas fracassou.

—Como anda a coisa por lá? Perguntou ela.

___Bem pior. O bolívar não vale nada. As pessoas dolarizaram artificialmente a economia. Tudo se paga em dólar. Uma cesariana, por exemplo, sai por mil dólares. Um absurdo! Nem nos Estados Unidos custa isso. Eu me perguntava: onde os venezuelanos arrumam dinheiro para pagar por procedimentos tão caros? Encontrei a resposta: os que pagam também ganham em dólar, vendendo produtos no mercado negro.

—“Bachaqueros”, afirmou minha esposa.

—O que são “bachaqueros”? Perguntei.

Ela tratou de explicar-me:

__Quando chegam produtos nos supermercados, a preços tabelados pelo governo, os donos dizem: chegaram tantas latas de óleo. Aí se forma uma fila imensa. Quando o produto acaba, o dono avisa: “acabou o óleo”. Só que não acabou. Ele vende uma quantidade para os “bachaqueros”. São pessoas que pagam gente para pegar fila e comprar determinado produto a tantos bolívares. Aí essas pessoas trazem os produtos para os “bachaqueros”, que os estocam. Uma vez estocada, a mercadoria é revendida mil vezes mais cara no mercado negro. Lucro astronômico!

—Entendi… E a saúde, como está? Perguntei a ele.

__A maioria dos médicos saiu do país, respondeu. Chile, Brasil, Espanha, Inglaterra, Colômbia.

—E os doentes?

__Não há quem os atenda. Trabalhei em um hospital público em Caracas onde não havia técnicos de enfermagem, nem enfermeiros para aplicar medicações. Também não precisava, porque não havia medicação. Uma vez eu peguei um plantão maluco desses e percebi que estava sozinho no hospital. Eu e mais oito alunos de quinto ano médico. O que eu fiz? Cheguei para os alunos e disse: aqui vocês são médicos residentes. Vamos todos atender. Assim procedemos.

—Posso imaginar a cena.

—Acho que não pode. Para você ter uma ideia, em uma das alas, um malandro sacudia a pistola exigindo falar com o médico. Fui a ele. “Minha esposa fez cesariana e está com dor”. Disse-me com voz irritada. Expliquei-lhe que até queria ajudar, mas não havia medicação no hospital. Dei-lhe uma lista do que seria necessário comprar. A coisa lá estava funcionando assim: à base de listas. Vai ser operado? Então… preciso de gelco, luvas, anestésico, adrenalina, equipo de soro, fio de sutura etc.

—E aqueles que não podiam pagar?

—Então… quando se precisava de um par de luvas para a cirurgia, pediam-se dois e guardava-se um. Assim se iam juntando as sobras para aqueles que não podiam pagar. Criamos um sistema paralelo de assistência.

De repente me deu vontade de por fogo na discussão, tanto que perguntei:

—Você tem socialistas na família?

—Infelizmente. Meu pai.

—Mas como? Com toda essa crise?

__Pois é.

—Você envia dinheiro a ele?

—Sim. E já peço para ele trocar por dólares. Lá o dinheiro desvaloriza num piscar de olhos. Eu vi uma publicação no Facebook em que um sujeito falava do preço do papel higiênico. Para comprar quatro rolos, era preciso um maço imenso de notas de bolívar. Ou seja, usar dinheiro para limpar a bunda valia mais a pena.

—Pois é, comentou minha esposa. Na última vez que eu estive em Caracas, até me espantou ver notas de bolívar dentro das lixeiras dos banheiros públicos. Estavam usando-as para limpar a bunda. Isso não é piada não. Vi com meus próprios olhos.

Rimos juntos, apesar da calamidade. Depois lancei as costumeiras farpas:

—Pois é. Mas pagar de socialista recebendo dinheiro do exterior é fácil. Basta você parar de mandar reais, que a mentalidade revolucionária vai rapidamente por água abaixo. Socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros.

Ele demonstrou certo desconforto, por isso mudei logo o rumo da prosa:

—Como foi sua vinda para o Brasil?

__Eu e minha esposa viemos por estrada, via Pacaraiama, em Roraima. Quando chegamos a Boa Vista, um policial federal logo nos reparou as feições diferenciadas e perguntou-me com que trabalhávamos na Venezuela. Respondi que éramos médicos. Ele me disse que também era médico. Anestesista. Falou que estava abrindo uma clínica na Bahia e convidou-me a trabalhar com ele. Disse-lhe que preferia não me arriscar porque ainda não possuía CRM. A polícia poderia apanhar-me. Ele ironizou e disse: “a polícia sou eu”. Ele, realmente, tinha muito poder onde vivia. Fora vereador, secretário de saúde e conhecia muita gente do judiciário local. Acabou que topamos. Como ele morava sozinho em uma casa imensa, por ser divorciado, alojou-nos em um dos quartos da mansão. Passamos a morar com ele. Também comíamos lá, por conta dele. Na clínica, responsabilizei-me, inicialmente, pelas cirurgias em ginecologia e obstetrícia. Depois me solicitaram para auxiliar um cirurgião vascular. Mais para frente, incluiram-me no chamado “projeto orelhinha”. Tratava-se de um cirurgião plástico que operava orelhas de abano. Aquilo funcionava como linha de montagem. Gerava-se muito dinheiro.

—Não tenho a menor dúvida.

—Só que eu não recebia. Na vez que eu reclamei, o dono deu-me dois mil em espécie. Para quem estava sem nada, com esposa e um bebê, já era alguma coisa. Depois disso, nada de nada.

—Vixe! Que aperto!

—Pois é. Mas aí, um cirurgião da clínica convidou-me a trabalhar com ele. Eu fui. Esse me pagava. Só que o policial descobriu e, logo que cheguei ao trabalho, pela manhã, chamou-me à sua sala aos gritos. “Você está demitido”, esbravejou.

—Mas te pagou?

—Assinou-me a carteira de trabalho como auxiliar administrativo, com salário de R$ 1200,00. Achei que receberia pelo menos isso, mas nada. Não vi cor do dinheiro.

—Isso foi trabalho escravo, pontuou minha esposa.

—Exatamente. Respondeu.

Ele tomou um gole de café e continuou:

—Hoje vivo em São Roque, no interior de São Paulo, mas trabalho em um município pequeno aqui do Amazonas. Ilegalmente. Em São Roque eu trabalhava em um supermercado por um salário mínimo, até que apareceu essa oportunidade aqui no Amazonas. No hospital, eu atendo tudo. Sou o único médico, portanto, sou pediatra, clínico, obstetra, cirurgião e até psiquiatra. Não há ninguém para me ajudar. Como eu não tenho CRM, ganho pouco, mas ainda é bem melhor que trabalhar no supermercado.

__E onde está sua família? Perguntei.

—Lá em São Roque. Eu venho ao Amazonas, trabalho um tempo, dia e noite, depois volto ver a família quando posso. Tenho medo de trabalhar ilegalmente. Posso ser preso.

__Preso não vai, disse minha esposa. Você é médico. Só não está revalidado neste país. Vai preso quem é falso médico. Isso existe. Gente que falsifica diploma e trabalha como médico. Não é o seu caso. O máximo que pode acontecer é sanção do CFM. Você pode não ser mais aceito na autarquia. Pode até ter problemas com a Polícia Federal e ser deportado. De qualquer forma, imagino que vocês vivam melhor aqui que no nosso país.

—Sem dúvida. O socialismo lá está tão avançado, que até os presentes de aniversário estão iguaizinhos aos de Cuba: shampoo e sabonete.

__Ah! Você viveu em Cuba? Perguntei.

—Sim. Estudei na Escola Latino-Americana de Medicina, junto com sua esposa.

—A economia venezuelana está a cada dia mais parecida com a de Cuba, disse minha esposa. Não há mais concessionárias de veículos. Todas deixaram o país. Os automóveis tornam-se cada vez mais velhos. As pessoas viram-se com as peças disponíveis para consertá-los. Num futuro próximo, a Venezuela terá somente carros antigos circulando, com algumas poucas Mercedes Benz dos “enchufados”, bem nos moldes de Cuba.

—“Enchufados”? Perguntei.

—São pessoas que possuem alguma ligação, direta ou indireta, com o governo chavista. Explicou. Mas, enfim, criou-se um mercado paralelo, dolarizado, como em Cuba.

—Mas em Cuba, esse mercado negro como o da Venezuela, é proibido.

Ela riu sarcasticamente e pontuou:

—Em Cuba nada se pode, tudo se faz. Você sabe disso.

Realmente eu sabia. Já estive em Cuba e tenho amigos cubanos residentes no Brasil que me contam muito do que se passa por lá.

—Quando estive em Cuba, respondi, a gente trocava euros pelos tais CUC. 1 CUC valia 1 euro, por definição do governo Castro. No mercado negro, o CUC, a peso de euro, circulava livremente. A economia de Cuba, a paralela, funcionava (e ainda funciona) em euros. A venezuelana movimenta-se em dólares.

__Não existe socialismo sem mercado negro, meu amor. Afirmou minha esposa. As pessoas que não viveram em países socialistas jamais entenderão isso. Não conseguem imaginar como os cubanos vivem com um salário mensal de 37 dólares e uma cesta básica fornecida pelo governo, a chamada “libreta”, com uma dúzia de ovos, azeite, um pouco de café (horrível, por sinal), alguns grãos, 1 quilo de arroz e açúcar. As pessoas vivem do mercado negro. Um sistema capitalista paralelo. Só assim o socialismo sustenta-se.

__Na Venezuela não é diferente. Disse o médico. O salário é até pior: 3,50 dólares mensais. Como viver com isso? Só com um mercado paralelo e com remessas vindas do exterior, no caso de quem tem familiares vivendo fora do país.

—Ano passado eu estive na minha cidade, completou minha esposa. A gente vê a crise na cara das pessoas. Aquela gente está ficando feia de tanto pegar fila debaixo de sol. E não há cosméticos para disfarçar. Muitos produtos desapareceram do mercado.

—Não é fácil, minha amiga. Disse ele. É o que eu disse: produto de beleza virou presente chique. Presentes mais ou menos são sabonete e shampoo.

—Que tristeza!

Eles se calaram por um momento e puseram-se a comer.

Aproveitei o silêncio e pus-me a pensar. Tratava-se de pessoa de boa estirpe, bem formada, um homem educado, de boa família. Gente como eu e como você, leitor. Para ele, viver nessas condições, ganhando mal, trabalhando como escravo, viajando constantemente do Oiapoque ao Chuí para ver a família e tendo trabalhado até mesmo em um supermercado em troca de um salário mínimo (um médico especialista!) oferece-lhe condições ainda melhores que na sua terra natal. Lembrei-me de como o socialismo já avançara durante o governo Dilma Rousseff. Não a tivéssemos derrubado, talvez hoje eu vivesse condições parecidas… ou piores.

Terminamos o café. Já se aproximava o horário do voo. Ofereci-lhe o banheiro para que se asseasse. Ele aceitou e partiu. Pedi a Deus que lhe concedesse melhores dias. Depois me estirei na cama e dormi, que o cansaço do dia de trabalho consumia-me o corpo. Dia afanoso, tarde instrutiva, noite serena.

André Paschoal é médico e escritor.

URNAS PODEM SER FRAUDADAS, ADMITE O PRÓPRIO TSE

O presidente Jair Bolsonaro apresentou hoje um documento, emitido pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral, que parece comprovar a vulnerabilidade das urnas eletrônicas. Nele, consta o inquérito instaurado em 2018 pelo Delegado de Polícia Federal Victor Neves Feitosa Campos, por suposta invasão de dados sigilosos daquele tribunal.

Consta, também, o pedido da então presidente do TSE, Ministra Rosa Weber, ao diretor-geral da Polícia Federal Rogério Augusto Viana Galloro, por medidas administrativas de polícia judiciária pertinentes.

No documento, também se encontra um e-mail do jornalista Felipe Payão, que encaminha a uma funcionária do setor de imprensa do TRE de São Paulo, documentos e imagens de suposta invasão do sistema GEDAI (Gerenciador de Dados, Aplicativos e Interface com a Urna Eletrônica) e outras informações sigilosas referentes a processos do TSE. Anexo, há também um texto do próprio invasor, descoberto pelo jornalista, dizendo:

“Devido a falhas/vulnerabilidades de aplicações desenvolvidas pelo proprio TSE, acabei obtendo acesso remoto a um dos equipamentos ligados à rede. Dessa forma, tive acesso à rede interna (intranet) e, por vários meses, fiquei explorando a rede, inclusive entrando em diversas máquinas diferentes do TSE, em busca de compreender o funcionamento do sistemas de votação. Com isso, obtive milhares de códigos-fontes, documentos sigilosos e, até mesmo, credenciais, sendo login de um ministro substituto do TSE (Sérgio Banhos) e diversos técnicos, alguns sendo ligados à alta cupula de TI do TSE e ao pai das urnas (Giuseppe Janino). Passadas algumas semanas em que estive utilizando os equipamentos de rede do TSE, notei, via e-mails dos técnicos da STI, que os mesmos notaram tráfego suspeito (por terem sido utilizados programas de scan na rede). Fizeram uma perícia para detalhar como o invasor conseguiu obter acesso ilegal à rede mas, mesmo com todos estes procedimentos de seguranga que dotaram, incluindo a alteração de senhas de todas as contas, acabou não sendo suficiente para interromper meu acesso aos e-mails, nem tampouco à rede interna. Notei que, em 07/09 (data de execução do pleito eleitoral de 2018), os técnicos cortaram acesso ao VPN (nota do autor: sigla em inglês para Rede Privada Virtual) e ao Correio, talvez para justificar que as urnas não possuem conexão com a internet, mas isso não é bem assim. Qualquer cidadão com conexão à internet e conhecimento para tal (exemplo: controle remoto de qualquer servidor que dispõe de conexão à internet/intranet), poderia ser utilizado (sic) para manipulação de aplicações”.

O laudo da Polícia Federal, que também consta do documento, comprova que houve invasão em várias máquinas do TSE no ano de 2018 e que o invasor teve, inclusive, acesso à senha de um dos ministros do tribunal.

O senador Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, publicou há pouco em suas redes sociais que está preparando a peça para abrir uma CPI das urnas eletrônicas.

André Paschoal é médico e escritor.

OS PREÇOS SUBIRAM. E AGORA?

Pedem-me para eu falar sobre a alta no preço da carne quando estou mais a fim de discutir futebol. A gente torna-se mais fútil com o avançar da idade.

Àqueles que insistem em saber meu posicionamento, ei-lo: economia consiste em um jogo de oferta e demanda. Se a procura pelo produto aumenta, o preço sobre. Como a China passou a comprar carne brasileira em grandes quantidades e a oferta não aumentou, obviamente o preço subiu.

Que atitude o governo deve tomar em face dessa situação desconfortável para o consumidor brasileiro? Nenhuma. Isso mesmo. Nenhuma!

Quando Bolsonaro disse que não iria tabelar o preço da carne, talvez orientado por Paulo Guedes, eu aplaudi de pé.
Finalmente um governo não interventor!

Toda vez que se estabelece um preço máximo a um produto, o mercado perde o seu referencial, que é o preço. Em suma: quando o preço aumenta, funciona como estímulo para produtor aumentar a oferta. Em se perdendo o referencial do preço, ninguém arrisca produzir mais, porque o prejuízo pode ser grande em caso de pouca demanda.

Conclusão: quando se tabelam preços, faltam produtos no mercado. Acontece em toda economia socialista: em Cuba, na Venezuela, na Coreia do Norte. Foi assim também no Brasil durante o governo Sarney: preços tabelados, prateleiras vazias. Quem viveu nos anos oitenta viu.

Políticas não intervencionistas são sempre melhores. Basta esperar. Mantendo-se alto o preço da carne, os produtores tenderão a aumentar a oferta, o que, além de gerar mais empregos, estabilizará o preço sem que as prateleiras esvaziem-se. Paulo Guedes e Bolsonaro sabem o que queremos: economia forte e geração de empregos. Não queremos passar dez horas na fila da carne.

Texto de 01 de dezembro de 2019.

André Paschoal é médico e escritor

POBREZA AMERICANA

Coitadinhos dos norte-americanos! Tão explorados! Ganham por horas trabalhadas. Nada de intervalo de almoço, décimo-terceiro, vale-transporte, vale-alimentação, FGTS, multa por rescisão de trabalho, aviso prévio, seguro desemprego.

Férias remuneradas? Um mês de descanso? Sonhe! O empregador é quem decide quantos dias o funcionário pode parar (no máximo quinze e descontados do salário). Adoecer pega mal. O patrão até espuma com esse tipo de falta, sendo que o tempo máximo de ausência que se costuma tolerar é de cinco dias, mas o empregado não recebe nenhum tostão durante o período. Licença-maternidade inexiste. Quem dá à luz deve voltar imediatamente ao trabalho para garantir o leitinho do neném. Pode-se optar pela permanência em casa por no máximo três meses igualmente não remunerados.

Quanta opressão! Temos muito a agradecer aos governos de esquerda. Ganhamos por treze meses e meio e trabalhamos onze. Considerando-se o abono salarial, recebemos por quatorze meses e meio! Se demitidos, temos seguro desemprego (três a cinco meses recebendo sem trabalhar, podendo-se prorrogar por mais dois).
Mulheres gozam de seis meses de licença maternidade (um semestre ganhando sem trabalhar)! Temos direito a aviso prévio, multa por demissão sem justa causa, intervalo remunerado de almoço, adicional noturno, vale-transporte, vale-alimentação, vale-tudo. Não é uma maravilha?

Infelizmente não. O salário-médio mensal de um trabalhador americano é 3,78 vezes maior do que o de um brasileiro. Um mês de trabalho de um norte-americano rende em média R$ 6.680,47 contra R$ 1.768,20 de um brasileiro, segundo o IBGE.

A miríade de direitos do trabalhador brasileiro pesa sobre o empregador e o estado. O primeiro desconta a desvantagem no preço dos produtos; o segundo, nos impostos. A carga tributária, por sua vez, além de afetar o bolso do próprio trabalhador, diminuindo-lhe o poder aquisitivo, desencoraja o empresário a investir. Por isso há tão pouco interesse em empreender. Quando há, pensa-se duas ou três vezes em contratar e dez a vinte em demitir.

A esquerda tem orgasmos múltiplos com isso. Ignora, ingênua ou deliberadamente, que essa é a causa de um PIB per capita brasileiro de US$ 11,7 mil contra US$ 51,7 dos Estados Unidos. Óbvio. Sem estímulo ao empreendimento não há fomento à produção. Produção pequena, faturamento irrisório; faturamento irrisório, salários baixos; salários baixos, arrecadação pífia; arrecadação pífia, serviços péssimos.

Bateu inveja dos americanos? Se não, saiba que por lá todo tipo de profissional—garçom, pedreiro, marceneiro—pode dirigir uma BMW, morar em casa própria com ar condicionado e piscina, ter seu IPhone 6, além de não enfrentar ônibus lotados e ruas esburacadas.
Quer mais? Americanos contam com sistema de segurança que lhes garante policiamento ostensivo e penitenciárias seguras. Vejam só! Eles andam tranquilos nas ruas de Nova Iorque e Los Angeles! Não é de se espantar. A produtividade de lá dá um baile na nossa. Por isso há impostos baixos e arrecadação alta. Consequentemente há salários melhores e preços mais acessíveis. Simples assim.

Enquanto isso, na terra do Vicentinho, compramos atestados médicos para faltar ao trabalho e emendar feriados, desfrutamos férias, horário de almoço, jornadas reduzidas, sem saber que o preço disso é insegurança, congestionamentos, pavimentação deplorável, sistema de saúde sofrível, educação vergonhosa, tudo isso regado a tributos cada vez mais altos e juros bancários absurdos que o governo cria tentando atrair capital estrangeiro para suprir a riqueza que não conseguimos criar.

Caracteriza-nos, acima de tudo, o medo. Medo de empreender, medo de contratar, medo de demitir, medo de consumir, medo de sair às ruas, medo da inflação, da recessão, do desemprego, da aposentadoria, do IPTU, do IPVA, da volta da CPMF. Coitadinhos dos americanos! A casa deles não tem muros!

Quanto a você, intelectual de esquerda, progressista avesso ao progresso, que vibra com todas essas “conquistas”, todos esses direitos, parabéns. Agora, por favor, não reclame que ganha mal. Não entre em greve. Não proteste contra o SUS ou a escola pública. Não se queixe de viver trancafiado, de evitar as ruas do centro. Não ouse dizer que paga impostos demais para retorno de menos. Tenha ao menos a dignidade de calar a sua boca!

Texto de 11 de janeiro de 2015

André Paschoal é médico e escritor

A NOITE É UMA CRIANÇA

Imagine que você e seus amigos resolveram dar uma festa inesquecível. No meio da noite, a banda atinge o ponto alto, gente badalando na pista, uísque, champanhe e caviar correndo soltos. De repente vocês descobrem que não têm dinheiro para as despesas. Que fossa, hem? O jeito é comer, beber e dançar tentando adiar ao máximo a chegada da conta. Algo familiar?

Nós últimos treze anos, o governo ofereceu crédito a Deus e o mundo, a juros módicos, visando aquecer a economia. A festa da bonança começou bombando: novos edifícios arranharam os céus, estudantes matricularam-se aos borbotões em faculdades particulares, empresas expandiram-se e outras abriram portas. Só que quando veio a fatura… Opa! Não havia dinheiro! E agora?

Diz-se que a crise é apenas política; com o “impeachment” de Dilma Rousseff, instantaneamente a economia pegará no tranco. Em verdade, a mente estatista do povo brasileiro é tão involuntária quanto respirar. Brasileiro não se enxerga longe das asas do estado. Se estuda, quer prestar concurso público; se é pobre, espera por socorro do governo; se é empresário, quer crédito fácil; se sonha com casa nova, pensa em financiamento da Caixa. E todos querem aposentar-se o mais cedo possível.

Eu me pergunto: como um país que pensa assim pode achar que a crise acabará num estalar de dedos? Basta Dilma renunciar e pronto: teremos crédito fácil novamente e assim retomaremos o caminho do crescimento. Bom, não?

Não mesmo! Enquanto não modificarmos o sistema em sua estrutura, jamais nos tornaremos país desenvolvido. Em 2014, por exemplo, concederam-se R$ 187,8 bilhões em crédito a juros baixos pelo BNDES, mais 13,75 bilhões pelo FIES (crédito universitário) e mais 140 bilhões pela Caixa Econômica (crédito imobiliário). Ah!–diriam–mas esses juros baixos têm respaldo na produção, certo?

Errado. Para se ter uma ideia, a População Economicamente Ativa gira em torno de 130 milhões. Desses, 11,1 milhões são funcionários públicos, sendo que 3390 recebem salários acima do teto (R$ 29.500,00) e 600 mil foram contratados sem concurso público (os chamados cargos comissionados). Um em cada dez brasileiros em idade de trabalhar é funcionário público. Fora os 20 milhões de aposentados.

Não acaba aí. Um em cada quatro brasileiros (quase 46 milhões) recebe bolsa-família. De cada 100 brasileiros em idade de trabalhar, apenas 53 trabalham, 3 procuram emprego e não encontram e 44 nem sequer procuram (dados do IBGE).
Para completar, ainda temos 600 mil trabalhadores encostados no INSS que podem ser reabilitados e não o são (dados do próprio INSS). Nove milhões de brasileiros recebem seguro-desemprego e acabam indo trabalhar na informalidade para não perder o benefício.

Em suma, temos 68,9 milhões de brasileiros que trabalham e 61,1 milhões que não. Dos que trabalham, 10% são funcionários públicos (6,89 milhões) e 600 mil estão encostados no INSS. No total são 68,6 milhões que, ou não trabalham, ou são servidores públicos.

A grosso modo, metade da população economicamente ativa brasileira sustenta a outra metade. Isso sem contar os 20 milhões de aposentados e outros 50 milhões que não compõem a população economicamente ativa. No total são 132 milhões de brasileiros mantidos por 68 milhões.

A festa de arromba, entretanto, tem um preço e imaginar que o setor público o pagará beira a loucura. O salário do servidor público não pode ser custeado pelos impostos descontados em suas próprias folhas. Daí a importância da iniciativa privada.
Se a indústria e o comércio encolhem e o estado infla, vai tudo por água abaixo.

Para haver crescimento na esfera privada, são necessários menos impostos, menos encargos trabalhistas e menos burocracia. Justamente o contrário do que temos. Não foi por acaso que a indústria encolheu 3,2% em 2014 e (pasme!) 8,3% em 2015. As vendas no comércio cresceram apenas 2,2% em 2014 e caíram 4,3% em 2015.

Economia fraca implica baixa arrecadação. Quanto maior o encolhimento, mais o contribuinte tem de sangrar. Por isso trabalhamos 5 meses do ano só para pagar impostos. 40% do PIB brasileiro é imposto! Com a retração de 3,8% da economia em 2015 (pior resultado desde 1990), o jeito é aumentar a carga tributária para manter a arrecadação. A festa não pode parar.

Por isso houve aumento do IOF, do IPI, dos combustíveis, da energia elétrica, das taxas sobre cosméticos, cervejas, refrigerantes e isotônicos. Mesmo assim a conta não fecha. Vem aí a nova CPMF.

Espanta-me o fato de tanta gente defender aumento de impostos. Dizem que todos têm de contribuir. Meu Deus do céu, onde vamos parar?!
Se se fala em enxugar a CLT, brasileiro tem até convulsão. “Como viver sem décimo-terceiro, abono salarial, auxílio isso, auxílio aquilo?”. Se se fala em diminuir créditos, causa-se enfarto em massa.

Mentalidade estatista não se muda da noite para o dia e é fácil saber por quê: há uma elite muito poderosa que se apoderou do estado. São os “donos do poder”. Ela manipula o meio político (e o compõe), transformando o povo em escravo do aparato que ele mesmo banca como contribuinte. Pior: essa elite apoderou-se também da mídia e da universidade, o que lhe confere a aptidão de incutir na cabeça das pessoas que não podem viver sem o socorro estatal.

É dessa elite a culpa pela nossa miséria. É ela a responsável pelo nosso atraso e não o que ela chama de elite: o médico, o engenheiro, o dentista, o pequeno comerciante, o gerente de banco, o advogado e essa gente toda que se desdobra do jeito que pode.

Perdoem-me pelo pessimismo, mas o Brasil não vai mudar com o “impeachment”. Se essa “fidalguia” não for expropriada do estado, será como a mosca da sopa: você mata uma, entra outra em seu lugar. Outra Dilma vem aí… E outra… E mais outra.

Marina Silva anda forte nas pesquisas. Quem declara voto nela? O próprio sujeito que trabalha cinco meses do ano para pagar impostos, que terá de se virar com a nova CPMF, que terá de apertar o cinto com as novas tarifas de energia e com o alto preço dos combustíveis. Ele mesmo quer que a festa entre madrugada adentro. Afinal, noite é uma criança.

Texto de 04 de abril de 2016

André Paschoal é médico e escritor

SERÁ PRECISO DERRAMAR SANGUE DE INOCENTES?

(Histórias de consultório)

Chamei a próxima cliente reparando na singularidade da sua graça: nome inglês com sobrenome castelhano.
Entrou uma jovem mestiça de uns trinta anos, morena, tez com traços africanos mas com cabelos negros e lisos de ameríndia. A estatura mediana, corrigida pelo salto alto, realçava-lhe as curvas típicas da raça negra. Belíssima.
__Bom dia. Saudei-a.
__Bom dia. Respondeu com o sotaque hispânico que me chamou a atenção.
Solicitei que entrasse no banheiro e se trocasse para a ultrassonografia ginecológica. Fê-lo prontamente e logo deitou-se à maca.
Dei início ao exame, procurando puxar assunto para quebrar o gelo, como de praxe.
__A senhora vem de onde?
__Venezuela.
__Ah! E trouxe alguma miss? Brinquei.
__Não. Respondeu rindo.__Estão todas lá.
__Teve uma que morreu, não foi?
__Morreu não. Mataram.
__Como anda a situação por lá?
__Horrível. Muito brava mesmo.
__O governo tem perseguido muita gente?
__Tem sim.
__Sei que a inflação anda astronômica. O dólar disparou. Ouço falar em escassez de produtos…
__Verdade. Mas a crise maior nem é econômica. É social. Nós médicos, por exemplo, em Caracas, não conseguimos trabalhar em paz. Estão sempre de olho. Se não atendermos bem… (Fez uma careta). Até cadáver temos de socorrer porque as paredes têm olhos e ouvidos. Por pequenos deslizes, levam-nos para uma favela qualquer e aí… Já viu.
__Ah! A senhora é médica? Resolveu fugir para cá?
__Sim. Mas, pelo que eu vejo, o Brasil está no mesmo caminho.
__Acha mesmo? Perguntei já meio que concordando com ela.
__Tenho certeza. Na Venezuela foi igualzinho. Muita gente duvidava de que os socialistas tomariam o país. Começou como aqui, com um programa semelhante ao bolsa-família, depois desarmamento da população civil, depois um programa de importação de médicos cubanos, isso tudo acrescido de casos e mais casos de corrupção política.
__Hum…
__Nas eleições acontecia a mesma coisa: os vermelhos sempre ganhavam por 51% a 49% dos votos. Idêntico ao último pleito no Brasil.
__Acha que houve fraude?
__Acho nada. Não há mais dúvidas quanto a fraude nas eleições.
__Na verdade, Brasil, Venezuela, Bolívia e Equador seguem a cartilha do Foro de São Paulo.
Achei que ela não saberia do que se tratava, mas para minha surpresa ela respondeu:
__Exatamente. O Foro foi fundado por Fidel Castro e Lula, com participação fundamental do nosso Hugo Chávez. É o Foro de São Paulo que comanda tudo o que está acontecendo nesses países. E não se engane não: na Venezuela havia um clima assim como está hoje no Brasil: muita gente duvidando do poder socialista. Foi muito rápido. Questão de dois anos e deu no que deu.
__Mas aqui nós não iremos permitir.
Ela riu ironicamente e continuou:
__Se este governo não cair agora, pode esperar pelo pior. A bomba socialista estoura de repente.
__Nem me fale. Dá até medo. Acha que a pobreza aumentou ou diminuiu na Venezuela?
__Para os pobres acho que piorou. Para classe média ficou impraticável. Estão todos deixando o país. Não tem como ficar lá mais.
__Isso é muito ruim.
__Demais.
__Os impostos aumentaram muito, não é?
__Muito. Aqui também estão aumentando, viu? Exatamente igual ao que foi lá. Fico impressionada de ver a semelhança. Mas os brasileiros parecem hipnotizados, assim como estávamos nós há quatro ou cinco anos. Incrível! Estive lá recentemente. Queria ficar um mês com a minha família. Não consegui passar nem uma semana.
__Por quê?
__Muito difícil viver lá. Violência demais. Impossível sair de casa.
__Entendo.
__E é incrível. Em todo lugar na Venezuela só se fala em política. Exatamente como aqui nos últimos dias.
__E nada de o Maduro apodrecer. Brinquei.
__Podre ele já é. Só não cai. Pensa que o governo do PT vai cair também? Doce ilusão! Na Venezuela nós paramos o país! Greve geral por sessenta e poucos dias. População tomando as ruas. Quem sofreu? O povo! O governo não arredou pé. Vocês não acreditam, mas eu estou vendo aqui a reprise do filme a que assisti no meu país. Não tem o que tirar nem pôr.
Deu-se uma pausa. Medi o útero e fotografei. Depois continuei.
__Mas então, creio que a senhora fugiu para o país errado.
__Parece que sim. Respondeu meio enternecida.
Dei o diagnóstico. Ela agradeceu, depois entrou no banheiro, trocou-se e saiu sem demora. Desejei-lhe boa sorte.
__Boa sorte para nós, respondeu. Iremos precisar muito. Esses governos não caem assim não. Não adianta povo na rua, greve geral, processo na justiça, nada disso. Eu vim para o Brasil fugindo do socialismo e estou vendo vocês trilharem o mesmo caminho pelo qual passamos.
__Imagino.
__Não tem jeito. Para nos livrarmos dessa gente, terá de ser derramado sangue. E não é sangue de Maduro nem de Lula não. É sangue de gente inocente.
__Espero que não. E oro por isso.
__Eu já orei muito. Cansei.
Esbocei expressão de desesperança. Ela retribuiu da mesma forma.
__Espero vê-la de novo.
__Igualmente.
Ela atravessou a porta e desapareceu. Senti um peso mas costas, um misto de pena dela e de nós todos. Sem outra opção, chamei o próximo cliente.

Texto de 21 de março de 2016.

André Paschoal é médico e escritor

PROCURAREIS A VERDADE, CAMARADAS!

Aqui é Jesus. Não costumo manifestar-me assim tão diretamente, mas você não tem me entendido. Andam dizendo que eu sou de esquerda, que sou socialista. Acredite: é verdade!

Conhece Russeau, meu filho, o pai da esquerda? Segundo o seu “Mito do Bom Selvagem”, os homens nascem bons; a sociedade os corrompe. Entendeu? Não há pecado original, ou seja, eu não precisaria ter assumido a culpa pelas perversões da humanidade. Morri na cruz por ser um fora-da-lei banal, entre dois ladrões. Não sou nem nunca fui o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Isso não passa de lenda.

Eu sou socialista, meu filho. Andei entre leprosos e prostitutas. Reparti os pães. Não importa se antes os multipliquei. Esqueça essa parte. Pense apenas que eu dividi.
Lembre-se de que o ensinei ser altruísta, ajudar os pobres, dar mais do que receber. Sim, sou socialista. Mas esqueça que o comunismo permite ao homem ser mesquinho, transferindo a incumbência da generosidade ao deus Estado.
Não pense em nada disso.

A propósito, você já ouviu falar em São Marx? Sabe o que é materialismo dialético? A grosso modo, este ideólogo do socialismo concluiu que religião faz o homem conformar-se com sua própria miséria, uma vez que o leva a crer em uma recompensa futura, que só se encontra no reino dos céus.
Pois eu não creio no reino dos céus. Atrapalha a nossa causa. Quero luta de classes! A salvação está na Terra e só será alcançada por meio de revolução sangrenta. Desejo expropriações, desabastecimento, mortes. Não quero paz. Jamais daria a outra face.

Compreenda: religião é o ópio do povo. Queime a sua Bíblia. Não reze a oração que eu mesmo o ensinei. Abandone os cultos. Não me dedique uma prece sequer. Pela razão do materialismo dialético, Deus não existe.

Eu sou socialista, meu filho. Não tenho dúvidas da inexistência do meu pai. Jamais me sentei à Sua direita. Aliás, se meu pai não existe, como posso eu existir? Concluo que jamais passei pela face da Terra. Não padeci sob Pôncio Pilatos, não fui crucificado, morto e sepultado. Como sepultar o que nunca houve?

Se eu não vivi–santa ironia!–não posso ter morrido. Se eu não morri, não posso ter ressuscitado. Entendeu, meu filho? O ponto alto do cristianismo é falso. Eu sou socialista!

Agora vá e não olhe para trás. Reflita com as bênçãos de todos santos: Bakunin, Marx, Engels, Gramsci, Russeau, Lênin, Stalin, Fidel, Mao e “tutti quanti”. Todos eles passaram pelo mundo e deixaram suas marcas. Estude-os. Afinal, nada do que se escreveu sobre mim tem validade, inclusive este texto, cujo autor não existe, portanto você não pode estar lendo.

André Paschoal é médico e escritor.

SOBRE FARDAS E GUARDAPÓS

Imagens do conflito entre professores e policiais no Paraná despertaram indignação de muitos. Poucos, no entanto, têm a sensatez de ater-se aos fatos, em vez de se deixarem levar por “slogans” midiáticos chapa-branca.

Para compreender o ocorrido precisa-se conhecer como atua o movimento revolucionário—este dragão de duas cabeças que confunde a opinião das pessoas, de eruditos a bebuns do bar da esquina.

Uma das características do movimento revolucionário é a capacidade de desencadear crises, pela distribuição incontida de créditos, para depois combatê-las. Coincidentemente é o que temos hoje no Brasil. Abusou-se das benesses, distribuíram-se empréstimos a juros módicos, via BNDES e financiamentos imobiliários. O governo endividou-se em nome da “justiça social” e, em nome dela, continuará endividando-se ‘ad libitum’.

Não precisava ser nenhum grande economista para perceber que a conta, mais cedo ou mais tarde, chegaria. Pois é! Chegou! Agora o governo tem de abusar de contabilidades criativas e pedaladas fiscais, tentando empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Com isso ganha tempo.

Já sentimos a recessão e sabemos quem arcará com o saldo negativo: o trabalhador. Aí se encaixam os professores do Paraná, assim como outros milhões de brasileiros que deverão abrir mão de direitos trabalhistas e sangrarão cada vez mais com impostos.

O dragão é sagaz. Gera crises, depois apresenta-se como solução através do mesmo mecanismo que as cria. Fomenta conflitos, depois os rechaça com violência. Não importa o resultado. Importa que movimento mantenha-se ativo. Ora joga de um lado, ora do outro, de forma que vença sempre, seja qual for o placar do jogo. Vende a falsa ideia de uma oposição atuante que, a bem da verdade, nada mais é do que uma de suas cabeças. Ambos—PT e PSDB—competem de forma real (admito!) mas pelo poder, não por diferenças ideológicas.

O incidente em Curitiba foi reflexo disso. O governo federal promove a instabilidade econômica e o modo como tenta contê-la desagrada os trabalhadores. A eles sobrou a dívida, o que os deixa cegos de indignação e, portanto, vulneráveis.

Quando encontraram (vejam só!) ativistas do próprio movimento revolucionário—pai da crise—, acabaram incitados a ir às ruas. Mas toparam, de um lado, com o governo Beto Richa na figura da PM; de outro, com a “oposição” paranaense na figura da petista Gleisi Hoffmann e de militantes da CUT e do PC do B com sangue nos olhos.

Armava-se o circo. “Black blocs” furaram o bloqueio. A PM reagiu. Gleisi, sobre o carro de som, deu voz de comando: não recuar. Resultado: mais de cem feridos entre professores, militantes e policiais. Mais professores do que militantes e policiais, diga-se de passagem.

Quem ganhou? O governo, que se fortalece acusando a “oposição” de violência e a “oposição”, que se beneficia acusando o governo de “mentor da crise”. Aos professores restou servir de massa de manobra ou, na linguagem revolucionária, de “idiotas-úteis”. Estes, como sempre, pagam o pato. Acabam feridos.

O movimento segue incólume. Nunca sangra, nunca inala gás lacrimogênio, nunca lhe inflamam os olhos sprays de pimenta. Usando a estratégia de “dividir para conquistar”, joga uns contra outros, fardas contra guarda-pós, brasileiros contra brasileiros. Estes sim saem machucados e, consequentemente, enfraquecidos. Perde o povo. Ganha a revolução.

Texto de 01 de maio de 2015

André Paschoal é médico e escritor