A INTERNET NUNCA MAIS SERÁ A MESMA

Quem militou na internet há dez ou quinze anos percebe que as coisas mudaram muito no ambiente virtual. Páginas e páginas de política nasceram e cresceram nos anos dez deste século. Publicações viralizavam num piscar de olhos. Perfis cresciam do dia para a noite.

A febre da internet passou a competir com os meios de comunicação em massa: televisão e rádio. Blogs independentes tomavam, cada vez mais, o lugar dos tradicionais tabloides. Revistas semanais perdiam leitores aos borbotões.

O povo ganhou voz e passou a concorrer com o estamento midiático. Ideias pré-fabricadas e hegemônicas, criadas por uma elite alheia à realidade da população, começaram a cair por terra. A internet revelava, por meio das tias do zap, que o discurso preponderante visto nas telenovelas, jornais, filmes, revistas, não refletia a real opinião da maioria.

O ambiente virtual tornou-se a mais notável amostra da verdadeira liberdade de expressão. Com o advento da internet, percebemos que vivíamos, antes dela, espécie de ditadura velada dos meios de comunicação. De modo pragmático, quase fordiano, a mídia tradicional forjava pontos de vista e determinava até onde poderíamos ultrapassar-lhes os limites.

A opinião permitida aparecia na tela da tevê, nas revistas, tabloides, quadrinhos. Fora daquelas fronteiras havia abismo, trevas e criaturas monstruosas a se combater energicamente.

Quem pensava diferente cria-se quase extraterreno, a ponto de calar-se para não se expor ao ridículo. Desenhava-se a espiral do silêncio que nos censurou por quase cem anos, até surgirem as redes sociais. Nelas não há ideias pré-moldadas, mas pensamento bruto, vindo direto da mente das pessoas.

Por isso, a internet virou pedra no sapato do sistema. Mas os donos do poder não deixariam barato, afinal, a espiral do silêncio garantia-lhes reinado praticamente eterno. Para eles, portanto, urgia encontrar nova forma de conter tamanha liberdade de discurso.

O revés das redes sociais no Brasil começou em 2014, com a lei 12.965, conhecida como Marco Civil da Internet, que responsabiliza plataformas e usuários por quaisquer publicações que demandem ações judiciais. Só que o provedor só responde judicialmente se não remover a publicação alvo de processo, mediante liminar, e se não revelar a identidade do autor às autoridades competentes.

O Marco Civil da Internet respaldou, por exemplo, a recente ordem do ministro Alexandre de Moraes de bloquear o aplicativo TELEGRAM em todo o território nacional. Sob o amparo da lei, removem-se publicações, cancelam-se perfis e páginas, desmonetizam-se canais, prendem-se blogueiros e jornalistas que ousam opinar fora da redoma midiática.

Talvez por medo—quem sabe?—todas as redes sociais, desde 2014, começaram a modificar algoritmos, diminuindo progressivamente o alcance principalmente de publicações sobre política. Viralizar no Twitter, Facebook, Instagram e YouTube, fatos extremamente comuns nos anos dez, tornou-se caso raríssimo no início dos anos vinte.

Em 2018, o Facebook, sob provável coerção da justiça, passou a exigir identificação a todos os usuários que desejassem promover postagens sobre temas sociais, mediante o argumento de que podem influenciar voto.

Desde então, para impulsionar qualquer publicação sobre política, economia e ciências sociais nas plataformas Meta (Facebook e Instagram), o usuário deve fornecer cópias de documentos, comprovante de endereço e precisa possuir site próprio com domínio pago. Enfim, algo praticamente inviável ao cidadão comum que costumava turbinar seus posts por dez ou vinte reais de vez em quando.

O Twitter chegou mais longe. Em outubro de 2019, Jack Dorsey, diretor executivo da empresa, informou que simplesmente proibiria anúncios pagos sobre política na plataforma, em qualquer país, sob o invariável pretexto de combate a notícias falsas.

Pouco tempo depois, o homem mais poderoso do mundo teve a conta no Twitter suspensa por doze horas. O perfil do presidente americano Donald Trump, com 88 milhões de seguidores, curvou-se à lei da mordaça. Se isso se deu com alguém tão rico e influente, imagine o que ocorre com meros militantes virtuais de classe média.

Totalitaristas e aspirantes a tiranos em todo o mundo abusam do subterfúgio do combate a notícias falsas. Usando a alegação, Vladmir Putin bloqueou o Google News na Rússia. Por aqui, pelo mesmo motivo, um pré-candidato a presidente—que, por sinal, lidera as pesquisas—admitiu ter intenção de regular uma internet já deveras regulamentada. Ao despotismo, não há limites. À desfaçatez, tampouco.

Outro argumento bastante utilizado pelos potenciais ditadores é o do combate à pedofilia nas redes. Nesse caso, “pedofilia” soa como palavra-gatilho. Quando usado, o termo desperta emoção e, assim, molda a opinião pública no sentido de apoiar possíveis bloqueios. Afinal, quem não aplaudiria a contenção do abuso de menores na internet?

Se há crimes em praça pública, fechem a praça pública. Restrições à internet no combate à pedofilia propõem exatamente isso, mas a palavra-gatilho inibe o senso crítico, levando menos avisados a pensar com o coração e não com o cérebro. Estratégia de dar inveja a qualquer Mao Tse Tung ou Josef Stalin!

Em 2021, o Washington Post e o New York Times, passaram a pressionar ainda mais as redes sociais, depois do episódio da invasão do Capitólio. O Twitter não pensou duas vezes e removeu permanentemente o perfil de Donald Trump.

Zuckerberg, fundador do Facebook, até então mais permissivo com publicações sobre temas sociais, sentiu a mão pesada da imprensa tradicional, que o acusou de priorizar o lucro em vez de tolher as chamadas fake news.

Alguns dias depois, por conseguinte, Trump também perdeu o perfil do Facebook e a plataforma fechou mais ainda o cerco sobre ativistas virtuais.

O tiro de misericórdia deu-se neste ano de 2022, com a decisão do Facebook de priorizar perfis pessoais em detrimento das fanpages. Em vista disso, o alcance orgânico das páginas de política caiu drasticamente. Publicações sobre o assunto não promovidas por boas quantias em dinheiro, simplesmente não obtêm visibilidade.

Quem ganha com isso? Detentores do poder econômico: políticos, com direito a verba de publicidade, o abastado sistema midiático e as grandes corporações. Quem perde? O cidadão comum. O grito de liberdade que um dia retumbou nas redes sociais, hoje não passa de balbucio fúnebre. Mas não há nada tão ruim que não possa piorar. No Brasil, se as pesquisas eleitorais confirmarem-se, a internet nunca mais será a mesma.

André Paschoal é médico e escritor.

DIÁLOGO NA MESA DE UM CAFÉ

Assim que saio do consultório, costumo dar uma passadinha num café próximo. Numa dessas ocasiões, encontrei uma amiga.

—Olá! Há quanto tempo! Saudei-a.

—Oi! Você por aqui? Passeando?

—Trabalho aqui perto, por isso, virei habitué da casa. Espera por alguém?

—Não.

—Posso acompanhá-la?

—Claro. À vontade.

Sentei-me e esfreguei o rosto. Ela deve ter notado-me as feições cansadas. As dela exalavam vigor e juventude, além da sofisticada feminilidade das ladies.

Pedi, como amiúde, um café preto e o tradicional pão com tucumã e queijo coalho, típico da região. Ela já bebericava o bublle tea de framboesa predileto das cocotes do século XXI.

Papo vai, papo vem, acabamos relembrando o tal caso do DJ Yves, que agredira a ex-esposa.

—Viu aquilo? Perguntou-me.

__Vi sim.

__Que crápula, não?

__Talvez sim, mas acho que se devem apurar muito bem situações como essa. Afinal, não sabemos o motivo que o levou cometer o delito.

__Como assim? Enlouqueceu? Ele merece cadeia.

__Calma! Estão querendo cercar o rapaz por todos os lados. Já tiraram as músicas dele de todas as plataformas streaming. Não querem puni-lo, querem acabar com a vida dele. Essa moda de cancelamento vem tornando-se cada vez mais perigosa. Condenar um cidadão ao ostracismo antes de saber o que realmente o levou a tomar certas atitudes pode gerar injustiças irremediáveis.

__Você está sendo machista.

__Sério? Você procurou inteirar-se sobre a história dessa mulher? Um ex-namorado dela, certa feita, tentou atropelá-la. Então, não foi a primeira vez que ela passou por incidentes assim. Será que o problema não é ela? Áudios vazados, inclusive, revelam que a moça chantageava o artista e ameaçava matar a filha e depois cometer suicídio. Tais atitudes desestabilizam qualquer cristão.

__Culpar as mulheres pela violência que sofrem. Típico de machista escroto. Tenho nojo disso!

—Não exagere.

—Ora, poupe-me! Você usou a velha desculpa de todo agressor de mulheres.

__Não tenho o perfil. Para dizer a verdade, bati em mulher apenas uma vez na vida, numa ocasião impossível de não se perder a cabeça.

__Como assim?

—Ela me atirou um vaso.

—Nossa!

—Pois é! Passou dos limites.

—Passou. Bom… mas também precisa ver o outro lado. O que você fez para que ela agisse dessa maneira?

__Então… percebe a semelhança nos pontos de vista? Não fiz nada. Aliás, eu inventei a história do vaso. Nem me atiraram o objeto, nem bati em ninguém. Mas a sua opinião sobre o suposto episódio pareceu-me bastante verdadeira e muito parecida com a minha, com a uma pequena diferença: o sexo das vítimas.

Ela esboçou um risinho amarelo e desviou o olhar. Depois chamou o garçom. Após breve pausa, perguntou-me com voz quase inaudível:

—Aceita um croque monsieur?

__Não. Obrigado. Jantei cedo. Brinquei.

—Adoro os pratos daqui. Disse escondendo-se atrás do cardápio.

Por saber a razão da mudança no rumo da prosa, apenas sorri com o canto da boca. Depois sorvi o que restava do meu café doppio com total regozijo.

Desde então, os comentários limitaram-se-lhe às condições do tempo e aos itens do menu. Chegado o pedido, concentrou-se em comer. Jamais se vira feminista tão lacônica saboreando um croque monsieur.

André Paschoal é médico e escritor.

BOLHAS, “BEAUTIFUL PEOPLE” E CANCELAMENTOS

E se o Arthur do Val disse a verdade?

A moda do cancelamento vem alcançando níveis alarmantes. A vítima mais recente, o deputado Arthur do Val, pagou muito caro por um audio vazado em que elogia a beleza das mulheres ucranianas e diz que muitas delas são “fáceis” por serem pobres.

Teria mentido? Para os que vivem em bolhas, transitam do trabalho ao shopping, da balada à igreja, do supermercado à praia, sim. Aos que já meteram pé na lama ao menos uma vez na vida, talvez. Não há dúvida quanto à beleza das ucranianas. Com relação à hipótese de algumas serem fáceis, transfiro a resposta aos que conhecem os problemas do país.

A Ucrânia é um dos principais destinos de turismo sexual da Europa. A explicação para o fato, segundo estudiosos e o próprio governo do país, encontra-se na pobreza da população e sua feminização, nas opções limitadas de mobilidade social e num sistema de crime organizado muito ativo. A situação tornou-se ainda pior com a política de isenção de vistos com a Europa Ocidental. Inflação alta, moeda fraca, mulheres lindíssimas e fronteiras abertas. A Ucrânia tem todos os atrativos ao turismo sexual.

Os que se indignam com o famigerado áudio, seguramente, não conhecem sequer o país onde vivem, quanto mais a Ucrânia. No máximo vão às praias do Nordeste aos feriados. Será que essa gente já visitou Santo Antônio do Içá, no Amazonas? Digo isso porque já o fiz. Mal pisei na cidade, já comecei a sentir o assédio das garotas.

Os que adoram comprar em Miami já visitaram Cuba? Também o fiz. As moças de lá entregam-se por um maço de cigarros ou um sabonete. Mas pobreza real passa longe dos olhos da beautiful people. O pessoalzinho da redoma só conhece a miséria mostrada nos filmes. Nem sequer imagina que mulheres em comunidades carentes tendem a ver forasteiros com os olhos verdes da esperança. Até traficantes tornam-se bons partidos a meninas de favela.

Nas falanges do politicamente correto, reina a hipocrisia. Por incrível que pareça, aqueles que julgam a fala do deputado uma ofensa às mulheres compõem a mesma horda bolsonarista que apoia a Rússia, cujos militares estupram civis ucranianas. Já os mesmos apoiadores de Arthur do Val, que chamam Bolsonaro de genocida, ouviram um dos seus dizer que a Alemanha errou em criminalizar o nazismo. Como faca de dois gumes, tentativas de cancelamento partem de ambos os lados.

Bolhas ignoram atos. Preferem ater-se a frases, porque estas criam narrativas. Têm perfeita noção dos esforços de Jair Bolsonaro durante a pandemia no sentido de recuperar a economia e distribuir vacinas, mas preferem ligar-se em declarações infelizes do tipo “não sou coveiro”. Sabem que Kim Kataguiri, propagador de ideias liberais, nada tem de nazista. Nazismo e liberalismo são tão imiscíveis quanto água e óleo. No entanto, preferem ater-se a deslizes cometidos num estólido podcast.

Qualquer indivíduo minimamente lúcido sabe que Arthur do Val não viajou à Ucrânia à procura de turismo sexual, mas para prestar ajuda humanitária. Quem, em sã consciência, entraria em uma zona de conflito atrás de vagina fácil? Nem o maior dos maníacos sexuais. Mas um áudio privado de WhatsApp tem maior repercussão que atitudes reais, pelo menos para a patota ilibada, indefectível, que jamais teceu piadinhas infames entre amigos.

Enquanto liberais e conservadores trocam farpas, socialistas observam a direita esvair-se em cinzas, os mesmos socialistas que apoiam a Rússia, os mesmos socialistas que adoram Cuba, os mesmos socialistas responsáveis pela penúria de Santo Antônio do Içá. Tamanho desgaste dispensa qualquer tipo de campanha da oposição. Nunca se viu a esquerda tão silenciosa. Pelo andar da carruagem, o Brasil seguirá os passos da Argentina e do Chile.

O candidato que, certa vez, disse admirar Adolf Hitler em entrevista concedida à revista Playboy em 1979, que falou em mulheres “grelo-duro”, manteve relações sexuais com cabras e afirmou ter tido vontade de estuprar um colega de cela, nunca viu caminho tão aberto para o poder. Aos autoproclamados paladinos da virtude, parafraseio o poeta Augusto dos Anjos: “acostuma-te à lama que te espera”.

André Paschoal é médico e escritor.

PROCURAM-SE CEGOS

Assim que me mudei para o Adrianópolis, apesar de residir no décimo sexto andar, passou a incomodar-me o ruído intermitente de um sinal de pedestres, instalado logo abaixo do meu prédio. Até hoje, a cada dois ou três minutos, ele dispara.

Pensei em qual seria a função do som desagradável, já que, para atravessar a rua em segurança, basta olhar as luzes. Na vermelha, espera-se; na verde, avança-se.

Inconformado, tentei mobilizar moradores a protocolar um requerimento na Prefeitura de Manaus, visando abolir o toque do sinal. Pouco tempo depois, descobri que era impossível. O apito destina-se aos deficientes visuais.

Passei a observar o semáforo toda vez ouvia o silvo azucrinante. Há três anos faço isso. Não vi, até agora, nenhum cego utilizando-o. Aliás, se algum aparecer, duvido que tenha suficiente confiança nos nossos educados motoristas, a ponto de arriscar-se a cruzar a via ao ouvir um mero toque.

Acendi um charuto e pus-me a divagar. No país dos direitos máximos, para que uma pessoa especial beneficie-se de um semáforo adaptado, milhares de ordinárias prejudicam-se pelo ruído dele. Isso teria simples solução: bastaria alguma alma caridosa ajudar o cego a atravessar. Caridade individual, todavia, não dá votos. Votos precisam de barulho.

Sabendo disso, um vereador manauara, recentemente, aprovou o projeto que dá direito a pacientes idosos de receberem medicamentos em casa. Escusado mencionar a necessidade de amplo e dispendioso aparato estatal para que isso se concretize. Quem paga a conta? Os ordinários.

Nenhum filho dispõe-se a buscar o medicamento dos pais? Nenhum neto o dos avós? Certamente sim. No entanto, esse tipo de ação invisível tiraria o respaldo do projeto. Melhor abafar os contras e divulgar somente os prós nos megafones da mídia. Políticos ganham notoriedade à custa de concessão de privilégios.

Por isso brotam cada vez mais vagas preferenciais em estacionamentos: gestantes, idosos, deficientes e, agora, autistas. Dá até desânimo ir aos shoppings centers e observar uma infinidade de vagas especiais vazias. Resta aos ordinários rodar, rodar e rodar.

Diante da gama infindável de direitos que o Estado outorga a certas minorias, aos ordinários, cheios de deveres, resta reivindicar ingresso no rol dos especiais. Já os especiais, vendo cada vez mais ordinários invadindo-lhes a sala, exigem mais direitos. Querem tornar-se súper-especiais. Idosos, por exemplo, têm prioridade nas filas, mas os acima de oitenta anos têm prioridade sobre os demais. Prioridade da prioridade.

Claro que alguns privilégios são justificáveis, apesar de haver sexagenários com mais vigor físico que muitos trintões. E não são poucos. Difícil é mofar nas salas de espera, diante de alguma tevê, e assistir a gestantes sambando na Marquês de Sapucaí, enquanto outras passam na nossa frente. Nessas horas, dá vontade de ingressar no grupo especial.

O anseio dos ordinários impulsiona parlamentares a aprovar novos projetos. Direitos tornaram-se moeda de troca política, por isso, multiplicam-se de tal forma que o país virou um verdadeiro hospício a céu aberto.

Constatei isso ao abrir o jornal e topar com a notícia estapafúrdia: tramita no Senado um projeto que impede a comercialização de fogos de artifício com estampido, visando proteger animais domésticos e autistas. Ambos têm baixo limiar para barulho, mas… Valei-me, Deus! O mar não está mesmo para os sãos.

Dobrei o tabloide, passei um café e segui fumando. O sinal pipiou de novo. Se irrita a mim, imagine a um autista. Mas… como assim? Que insanidade a minha! Os cegos precisam atravessar. Olhei para baixo. Não era um cego. Mas poderia ser. Qual dos dois mereceria mais a súper-especialidade? Torço pelos autistas nessa. Quem sabe tiram essa bodega de lá? Pensadores como eu gostam de silêncio. E silêncio anda cada vez mais escasso em nossos dias. Tanto que…

Mal cessou o apito, uma ambulância passou aflita. Pobres autistas! Deveríamos proibir, também, as sirenes? Até poderíamos, entretanto, cairíamos em outro problema: como abrir passagem sem um meio de avisar aos motoristas que, dentro da viatura, há um ser humano precisando de cuidados urgentes? Quem vale mais: autistas ou acidentados?

Sorvi um gole de café e soltei outra baforada. O charuto queimava as últimas folhas. Olhei a espiral de fumaça. Lamentei por não poder fumar em nenhum café, bar ou restaurante do Brasil. Há leis que proíbem o fumo nesse tipo de estabelecimento, enquanto outras permitem animais domésticos. Cheguei a ver pets até sobre as mesas. Irônica era! Tapete vermelho a animais, cartão vermelho a humanos.

Apaguei o charuto. O tempo começou a fechar. Já caia fina chuva. Encostei a vidraça da varanda quando, súbito, retumbou um trovão. Quase pus o coração pela boca. Se eu fosse um cãozinho, teria morrido. Como São Pedro pode ser tão insensível com animaizinhos indefesos?

Do jeito que as coisas andam, não demorará muito para o Ministério Público mover ação contra o santo. Um juiz dará dez dias para que ele pare de mandar chuvas com raios e trovões, caso contrário, pagará muito caro, quiçá crucificado de novo. E de cabeça para baixo! No manicômio tupiniquim, não há mais nada impossível.

André Paschoal é médico e escritor.

MÁSCARAS, VACINAS E INTENÇÕES DE VOTO

Cheguei ao consultório já cansado de usar aquela máscara sufocante. Por isso, disse à secretária em tom jocoso:

__A partir da próxima semana, não usarei mais esta focinheira.
__Sério, doutor? Já liberaram?
__Não, mas eu me liberei. Brinquei.
__Ah, tá. O senhor tomou vacina, doutor?
__Claro! Três doses.
__Mas não queria, né?
__Claro que queria.
__Mas o senhor não é de direita?
__Sou. Mas existem dois tipos de direita: a chucra e a pensante. Faço parte da segunda.
__O senhor votou no Bolsonaro?
__Claro.
__Vai votar nele de novo?
__Se os candidatos ao pleito forem os que se apresentaram até agora, votarei nele sim.
__Mas ele é contra as vacinas.
__Não é verdade. Ele comprou vacinas e as distribuiu à população. Quanto ao fato de ele não ter tomado o imunizante, é questão de opção.

Depois do papo, pus-me a pensar no quanto a militância antivacina prejudicou a imagem da direita. Reconstrui-la, em tão pouco tempo, tentando evitar a iminente derrota em 2022, exigirá esforços hercúleos. Que Deus nos ajude!

André Paschoal é médico e escritor.

IÇARAM A BANDEIRA VERMELHA

Toda vez que alguém iça a bandeira vermelha nestas terras tupiniquins, o Brasil transforma-se em um verdadeiro hospício a céu aberto.

Desta vez, quem hasteou a flâmula foi a deputada comunista Tábata Amaral, cujo projeto de distribuição “gratuita” de absorventes higiênicos para mulheres carentes obteve aprovação no Congresso.

Tudo corria às mil maravilhas até o presidente Jair Bolsonaro vetá-lo, alegando que o texto não indica a fonte do custeio. Desencadeou-se o pandemônio na imprensa, nas redes sociais e nas bancadas legislativas.

Luciano Huck falou em oportunidades iguais para pessoas que menstruam. O deputado Kim Kataguiri, autodenominado liberal, condenou o veto com veemência. Arthur do Val, parlamentar que também integra o movimento liberal MBL, publicou no Twitter: “somos um país que não tem R$ 85 milhões para distribuir absorventes para pessoas pobres, mas tem R$ 40 milhões para auxílio paletó de deputado”.

Só que o gasto público do Brasil soma 42% do PIB e, segundo avaliação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o país permitiria um gasto entre 30 e 35% do PIB. Ou seja: torramos dinheiro demais, tanto com ternos para deputados, quanto com preservativos para o povo esbaldar-se no carnaval e esquecer que paga pelos ternos desses deputados.

Cada direito que algum político cria em troca de votos demanda um novo aparato estatal para viabilizá-lo, tornando o serviço caro e ineficiente. O preço da máquina pública brasileira ultrapassa R$ 4 trilhões. Por isso somos um dos países com maior carga tributária do mundo. Direitos custam dinheiro.

Mesmo a justificativa do presidente Bolsonaro para o veto não condiz com nada que o aproxime de um político de direita. Dá a entender que basta apontar a fonte do custeio para que sancione a aberração.

Triste realidade: brasileiro acredita em almoço grátis. Mesmo os que dizem combater o socialismo, acabam apoiando-o inadvertidamente. Até a “direita” brasileira pensa a la gauche. Bate no peito com orgulho dizendo que Bolsonaro aumentou o Bolsa Família, abomina cotas raciais na universidade ao mesmo tempo que defende cotas para egressos da escola pública. Costumo chamá-la de direita cloroquina, porque adora gastar com medidas ineficazes. Este país cansa!

A cada dia, o socialismo enlaça-nos como anaconda faminta. Quanto mais aperta, mais nos mexemos; quanto mais nos mexemos, mais aperta e nos escraviza, tornando-nos cada vez mais dependentes da tutela do Estado.

Exemplos há inúmeros. O Bolsa Família, criado em 2005 para erradicar a pobreza no Brasil, iniciou com cerca de 1 milhão de favorecidos, passou a 8 milhões em 2013 e chegou a 14 milhões de beneficiários em 2021.

Sabe quando isso vai parar? Nunca! Os brasileiros já não conseguem imaginar como seriam suas vidas sem o benefício. Qualquer candidato que ouse aventar a hipótese de extinguir o programa pode considerar-se derrotado.

Quer outro? O SUS. O sistema “gratuito e de qualidade” criado em 1990, chegou de mansinho, posando de bom moço, como alternativa àqueles que, segundo opiniões, não podiam custear tratamentos médicos. De lá para cá, houve tamanho crescimento que o Leviatã hoje abarca 80% da população brasileira.

Cento e cinquenta milhões de brasileiros dependem do SUS. Essa parcela da população já não consegue vislumbrar nenhuma maneira de ter acesso a tratamentos de saúde sem a ajuda do Estado.

Citei apenas dois exemplos. Há diversos outros: educação gratuita, transporte gratuito, energia gratuita, moradia gratuita e por aí vai. Quanto mais almoço grátis os governos criam, mais as pessoas o pedem.

Poucos, todavia, percebem o engodo: não existe nada isento de custos. Para cada indivíduo que recebe algo sem pagar, outro paga por algo que não recebeu. Os que arcam com as despesas, por conseguinte, deixam de investir e poupam pouco.

Menos dinheiro nos bancos, maiores taxas de juros; juros altos, menos facilidade para abrir novos negócios; menos empreendimento, mais desemprego, menores salários, maior dependência do Estado. Uma espiral negativa para servir de deleite a qualquer socialista.

O mito do governo grátis esconde o plano perverso de poder que o economista austríaco Friedrich Hayek chamou de “caminho da servidão”. Pseudópodes do Estado ramificam-se até que nada mais exista fora dele, tornando as pessoas servas das próprias necessidades. A lei do “quem não me obedece, não come” cai como uma luva em regimes de esquerda.

Se um aplicativo surge como alternativa barata aos ônibus lotados da prefeitura, logo aparece uma lei para regulamentá-lo. Surgiu um plano de saúde baratinho como opção ao SUS? Basta obrigá-lo a oferecer coberturas dispendiosas que nem sempre interessam aos clientes.

Assim se vão encarecendo e inviabilizando os serviços privados, limitando a liberdade de escolha das pessoas e tornando a população cada vez mais dependente dos serviços públicos. O ciclo tende a chegar a um ponto onde a iniciativa privada, de tão encolhida, não consiga mais custear a festa dos direitos máximos.

Na Venezuela, subvenções estatais permitiam que se enchessem os tanques dos carros a preço de banana. A energia elétrica, até hoje subsidiada pelo governo bolivariano, beira a gratuidade. Consequência: venezuelanos chegam a passar até 12 horas por dia sem eletricidade e até 24 horas na fila dos postos de gasolina.

Onde isso vai parar? Talvez em Cuba, aonde nos guia o governo grátis. Na ilha, até a comida vem do Estado. Como não há quase iniciativa privada para bancar tanta “gratuidade”, o almoço grátis resume-se a meia-dúzia de ovos, um pouco de frango, batatas, algumas porções de café e açúcar, óleo e alguns itens de higiene. Carne só em sonho.

Mas o povo cubano, em sua maioria, agradece de joelhos pelas migalhas. Não consegue mais imaginar a vida fora do socialismo. Nos hospitais não há remédios e mulheres menstruadas (amarga ironia!) têm de improvisar buscando algodão nos postos de saúde.

Aquele Sempre Livre com abas, cujo pacote custa cerca de R$ 3,00 por aqui e pode ser pago por qualquer beneficiária do Bolsa Família, em Cuba é artigo de luxo. Pelo algodão estatal, as cubanas dizem “muchas gracias”.

André Paschoal é médico e escritor.

BLACK BLOCS AMEAÇAM TUMULTUAR MANIFESTAÇÃO BOLSONARISTA DA PRAÇA DO CONGRESSO EM MANAUS

(Manaus)

Anteontem, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), publicou no seu site oficial, uma convocação para ocupar as ruas no dia 7 de setembro em todo o Brasil. Link abaixo.

https://www.cut.org.br/noticias/7-de-setembro-e-dia-de-ocupar-as-ruas-contra-desvarios-de-bolsonaro-e-por-direit-3314

Segundo Sérgio Nobre, presidente nacional da entidade, os manifestantes protestarão contra os desvarios de Jair Bolsonaro e por direitos.

Nobre acusa Bolsonaro de atitudes golpistas e de ataques às instituições e à democracia. Ele garante, no entanto, que a militância atuará de forma pacífica.

Só que, em Manaus, a reunião dar-se-á, perigosamente, na Praça da Saudade, a poucos metros da Praça do Congresso, onde se encontrará uma congregação bolsonarista. Pior: os dois protestos acontecerão no mesmo horário.

A julgar pelos fatos, há risco real de confronto entre os dois grupos, pois o antagonismo ideológico de ambos pode resultar em provocações. Também vale ressaltar que os chamados black blocs consumam marcar presença neste tipo de evento.

Sendo assim, a quem pretende manifestar-se com tranquilidade, levar família, namorada, crianças e desfraldar bandeiras auriverdes de forma pacata pelas vias de Manaus, aconselha-se que se dirija ao ato da Ponta Negra, onde não haverá possibilidade de embates. Quem gosta de uma boa briga, de levar borrachada da PM e inalar gás lacrimogênio, dê preferência ao centro.

André Paschoal é médico e escritor.

MANAUS AGORA TERÁ 3 PONTOS DE CONCENTRAÇÃO PARA O 7 DE SETEMBRO

Quando o manauara achava que nada seria pior que o racha entre os movimentos de direita para o dia 07 de setembro, com dois pontos de encontro marcados, aparece mais uma surpresa: um terceiro local.

Um grupo menor ocupará a Praça do Congresso, liderado pelos movimentos Endireita Amazonas e Conservador Amazonas, com presença confirmada do pré-candidato a senador Coronel Menezes. O maior grupo, organizado pelo movimento Direita Amazonas, concentrar-se-á na Ponta Negra, contando com a presença de diversos políticos, como o também pré-candidato ao senado Chico Preto, e celebridades locais. Já o terceiro grupo, formado eminentemente por evangélicos, marcará presença no Memorial dos Povos da Amazônia, por convocação do parlamentar Silas Câmara.

O deputado federal Delegado Pablo Oliva, que irá à Ponta Negra, não vê a divisão como prejuízo. “Acho que o fato de estar em distintos lugares faz com que o movimento mostre-se até maior, pois atinge diferentes públicos. Nem sempre será possível que todos estejam no mesmo local. Vimos isso também em 2018. Tivemos o 7 de Setembro no sambódromo, o Mulheres com Bolsonaro na praça São Sebastião, carreatas nas zonas norte e leste e trios elétricos na Ponta Negra. A união será por um único propósito: um Brasil melhor, mais democrático e com respeito ao estado de direito e às liberdades do nosso povo”, diz.

O empresário Sérgio Kruke, líder do Movimento Conservador Amazonas, também não vê o cisma com maus olhos, apesar de não esconder a antipatia pelos organizadores do ato da Ponta Negra. “Não vejo prejuízo, até porque está muito bem claro que o ato da Ponta Negra virou palanque eleitoral e o povo tem liberdade de ir para lá ouvir e aplaudir seus políticos. No centro, a manifestação será do povo e tão somente pelo povo brasileiro, que agora é perseguido até nas falas e escritas por membros do alto escalão do Judiciário”, afirmou.

Kruke, pelo que parece, não considera seu evento um palanque eleitoral para o Coronel Menezes e, a exemplo da velha narrativa lulopetista, não faz questão de esclarecer o que ele considera “povo”.

Procurado por Rua Direita, o deputado estadual Delegado Péricles declarou: “entendo que qualquer manifestação é importante. Claro que a união seria ideal, uma concentração em um único local em nome do nosso presidente, pela liberdade de expressão e a livre manifestação do pensamento. Vejo a Ponta Negra como o melhor lugar, por ter sido palco tradicional dessas manifestações e aonde se dirigem, normalmente, muitas famílias e pessoas de bem em torno de um propósito. Infelizmente, isso não está sendo possível, mas faremos a nossa parte. Temos tudo para realizar uma grande concentração e um grande evento”.

O ativista Felipe Silva, líder do movimento Endireita Amazonas, foi mais categórico: “não há divisão nenhuma. Não se pode dividir o que nunca esteve unido”, disse em clara referência ao movimento Direita Amazonas.

Nas entrelinhas, contudo, além de disputa de egos, esconde-se politicagem das mais rasteiras. O pleito de 2022 elegerá apenas um senador por estado. Só que o Amazonas terá pelo menos dois candidatos conservadores ao Senado: Coronel Menezes, amigo pessoal do presidente, e o ex-vereador Chico Preto.

Obviamente, na concepção deles, ambos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço político, mesmo que em prol de uma causa bem mais nobre: a liberdade do povo brasileiro.

Sem falar que, havendo dois candidatos de um mesmo espectro para apenas um cargo majoritário, a tendência é de derrota para ambos.

Parece que o sapeca-iaiá que a direita levou nas últimas eleições municipais não serviu de lição para os conservadores do Amazonas. Porém, os néscios não aprendem nem com os próprios erros.

Por fim, aproveitando-se do vácuo deixado pela cisão dos movimentos, Silas Câmara decidiu surfar na onda dos protestos e colocar seus militantes na rua. Esses, na maioria evangélicos, ocuparão o Memorial dos Povos da Amazônia. Completa-se o desastre.

O preço, paga a população, que sem saber aonde ir, divaga entre farpas de políticos ambiciosos, egos inflados de ativistas e um ranço de velha política que insiste em impregnar-se no estado, mostrando que, dia 7 de setembro, a melhor opção para o manauara é ir à Avenida Paulista.

André Paschoal é médico e escritor