
Quem militou na internet há dez ou quinze anos percebe que as coisas mudaram muito no ambiente virtual. Páginas e páginas de política nasceram e cresceram nos anos dez deste século. Publicações viralizavam num piscar de olhos. Perfis cresciam do dia para a noite.
A febre da internet passou a competir com os meios de comunicação em massa: televisão e rádio. Blogs independentes tomavam, cada vez mais, o lugar dos tradicionais tabloides. Revistas semanais perdiam leitores aos borbotões.
O povo ganhou voz e passou a concorrer com o estamento midiático. Ideias pré-fabricadas e hegemônicas, criadas por uma elite alheia à realidade da população, começaram a cair por terra. A internet revelava, por meio das tias do zap, que o discurso preponderante visto nas telenovelas, jornais, filmes, revistas, não refletia a real opinião da maioria.
O ambiente virtual tornou-se a mais notável amostra da verdadeira liberdade de expressão. Com o advento da internet, percebemos que vivíamos, antes dela, espécie de ditadura velada dos meios de comunicação. De modo pragmático, quase fordiano, a mídia tradicional forjava pontos de vista e determinava até onde poderíamos ultrapassar-lhes os limites.
A opinião permitida aparecia na tela da tevê, nas revistas, tabloides, quadrinhos. Fora daquelas fronteiras havia abismo, trevas e criaturas monstruosas a se combater energicamente.
Quem pensava diferente cria-se quase extraterreno, a ponto de calar-se para não se expor ao ridículo. Desenhava-se a espiral do silêncio que nos censurou por quase cem anos, até surgirem as redes sociais. Nelas não há ideias pré-moldadas, mas pensamento bruto, vindo direto da mente das pessoas.
Por isso, a internet virou pedra no sapato do sistema. Mas os donos do poder não deixariam barato, afinal, a espiral do silêncio garantia-lhes reinado praticamente eterno. Para eles, portanto, urgia encontrar nova forma de conter tamanha liberdade de discurso.
O revés das redes sociais no Brasil começou em 2014, com a lei 12.965, conhecida como Marco Civil da Internet, que responsabiliza plataformas e usuários por quaisquer publicações que demandem ações judiciais. Só que o provedor só responde judicialmente se não remover a publicação alvo de processo, mediante liminar, e se não revelar a identidade do autor às autoridades competentes.
O Marco Civil da Internet respaldou, por exemplo, a recente ordem do ministro Alexandre de Moraes de bloquear o aplicativo TELEGRAM em todo o território nacional. Sob o amparo da lei, removem-se publicações, cancelam-se perfis e páginas, desmonetizam-se canais, prendem-se blogueiros e jornalistas que ousam opinar fora da redoma midiática.
Talvez por medo—quem sabe?—todas as redes sociais, desde 2014, começaram a modificar algoritmos, diminuindo progressivamente o alcance principalmente de publicações sobre política. Viralizar no Twitter, Facebook, Instagram e YouTube, fatos extremamente comuns nos anos dez, tornou-se caso raríssimo no início dos anos vinte.
Em 2018, o Facebook, sob provável coerção da justiça, passou a exigir identificação a todos os usuários que desejassem promover postagens sobre temas sociais, mediante o argumento de que podem influenciar voto.
Desde então, para impulsionar qualquer publicação sobre política, economia e ciências sociais nas plataformas Meta (Facebook e Instagram), o usuário deve fornecer cópias de documentos, comprovante de endereço e precisa possuir site próprio com domínio pago. Enfim, algo praticamente inviável ao cidadão comum que costumava turbinar seus posts por dez ou vinte reais de vez em quando.
O Twitter chegou mais longe. Em outubro de 2019, Jack Dorsey, diretor executivo da empresa, informou que simplesmente proibiria anúncios pagos sobre política na plataforma, em qualquer país, sob o invariável pretexto de combate a notícias falsas.
Pouco tempo depois, o homem mais poderoso do mundo teve a conta no Twitter suspensa por doze horas. O perfil do presidente americano Donald Trump, com 88 milhões de seguidores, curvou-se à lei da mordaça. Se isso se deu com alguém tão rico e influente, imagine o que ocorre com meros militantes virtuais de classe média.
Totalitaristas e aspirantes a tiranos em todo o mundo abusam do subterfúgio do combate a notícias falsas. Usando a alegação, Vladmir Putin bloqueou o Google News na Rússia. Por aqui, pelo mesmo motivo, um pré-candidato a presidente—que, por sinal, lidera as pesquisas—admitiu ter intenção de regular uma internet já deveras regulamentada. Ao despotismo, não há limites. À desfaçatez, tampouco.
Outro argumento bastante utilizado pelos potenciais ditadores é o do combate à pedofilia nas redes. Nesse caso, “pedofilia” soa como palavra-gatilho. Quando usado, o termo desperta emoção e, assim, molda a opinião pública no sentido de apoiar possíveis bloqueios. Afinal, quem não aplaudiria a contenção do abuso de menores na internet?
Se há crimes em praça pública, fechem a praça pública. Restrições à internet no combate à pedofilia propõem exatamente isso, mas a palavra-gatilho inibe o senso crítico, levando menos avisados a pensar com o coração e não com o cérebro. Estratégia de dar inveja a qualquer Mao Tse Tung ou Josef Stalin!
Em 2021, o Washington Post e o New York Times, passaram a pressionar ainda mais as redes sociais, depois do episódio da invasão do Capitólio. O Twitter não pensou duas vezes e removeu permanentemente o perfil de Donald Trump.
Zuckerberg, fundador do Facebook, até então mais permissivo com publicações sobre temas sociais, sentiu a mão pesada da imprensa tradicional, que o acusou de priorizar o lucro em vez de tolher as chamadas fake news.
Alguns dias depois, por conseguinte, Trump também perdeu o perfil do Facebook e a plataforma fechou mais ainda o cerco sobre ativistas virtuais.
O tiro de misericórdia deu-se neste ano de 2022, com a decisão do Facebook de priorizar perfis pessoais em detrimento das fanpages. Em vista disso, o alcance orgânico das páginas de política caiu drasticamente. Publicações sobre o assunto não promovidas por boas quantias em dinheiro, simplesmente não obtêm visibilidade.
Quem ganha com isso? Detentores do poder econômico: políticos, com direito a verba de publicidade, o abastado sistema midiático e as grandes corporações. Quem perde? O cidadão comum. O grito de liberdade que um dia retumbou nas redes sociais, hoje não passa de balbucio fúnebre. Mas não há nada tão ruim que não possa piorar. No Brasil, se as pesquisas eleitorais confirmarem-se, a internet nunca mais será a mesma.
André Paschoal é médico e escritor.















