HERÓIS SEM NENHUM CARÁTER

Neste centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, falar sobre Mário de Andrade tornou-se questão obrigatória em qualquer meio intelectual. O nome do escritor remete, quase invariavelmente, ao seu principal personagem: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

Há semelhanças entre os anos de 1922 e o atual: ambos passaram por crises políticas. Em 1922, Arthur Bernardes herdou os efeitos da recessão econômica da década de 20 e o consequente ocaso do poder dos cafeicultores. O incipiente processo de industrialização, como de praxe, levou à criação do Partido Comunista, responsável por greves que eclodiam aos borbotões em São Paulo e Rio de Janeiro.

Bernardes também enfrentou o Movimento Tenentista, revolta militar que, entre outras reivindicações, questionava a idoneidade do processo eleitoral e exigia o voto secreto. O então presidente conteve o conflito com mãos de ferro, abusando da censura aos meios de comunicação e limitando liberdades individuais.

Em 2022 temos um presidente de formação militar que contesta a lisura do processo eleitoral e cujos asseclas vêm sumariamente sofrendo com censuras e prisões por ordem das cortes supremas. Só mudou um pouco a exigência: voto impresso auditável. A ameaça comunista voltou a assombrar, com a eleição de Lula, ex-líder sindical e um dos fundadores do Foro de São Paulo—atual Grupo de Puebla—órgão responsável por alçar ao poder governos socialistas em praticamente todos os países da América Latina. Trocaram-se as cartas, não o baralho.

Situações de instabilidade servem como terreno fértil para o aparecimento de heróis. Seis anos após a Semana de 22, Mário de Andrade criou o representante mais icônico do povo brasileiro. Individualista, preguiçoso e dado aos prazeres carnais, Macunaíma agia como bem queria, sem preocupar-se com absolutamente nada. Além do mais, esbanjava vaidade e mentia com a maior desfaçatez.

Macunaíma, interpretado pelo ator Grande Otelo.

No decorrer da história, outras adversidades políticas e econômicas eclodiram. Os heróis, todavia, sofreram pouca modificação. Seguem como espelho do povo que os cria e recria ao longo dos tempos. Em 1985, ia ao ar a terceira novela de maior audiência da história da televisão brasileira: Roque Santeiro. O autor Dias Gomes tirou Macunaíma das páginas e colocou-o nas telas da TV. Roque reencarnou o famigerado herói: tão mau-caráter quanto. Dado como morto ao lutar contra o bandido Navalhada, que queria roubar o turíbulo de ouro da igreja, Roque foi eleito santo, não pela Cúria Romana, mas pelo povo.

Tudo corria bem na cidade. Atribuíam-lhe até milagres. Só que, dezessete anos depois, surpreendentemente, ele voltou à cidade natal—mais vivo que nunca—e contou a verdade a um grupo de poderosos que se mantinha às custas da imagem do “mártir”: o prefeito Florindo Abelha, o latifundiário Sinhozinho Malta e a viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido (Malta falsificara uma certidão de casamento entre Roque e Porcina depois da morte do “santo”). As primeiras peças do dominó começavam a cair. Roque Santeiro furtara a igreja, não Navalhada. Nem mártir, nem santo. Ladrão e mentiroso, isso sim. Algo familiar?

Roque Santeiro, interpretado pelo ator José Wilker.

Cem anos depois da Semana de 22, um ex-presidiário volta à presidência nos braços do povo, prometendo churrasquinho e cerveja. Depois de desviar milhões dos cofres públicos, de comprar votos de parlamentares e de manipular a tudo e a todos em favor do próprio partido, lá está ele de novo: o herói das massas, o pai dos pobres. Macunaíma e Roque Santeiro devem rir-se ao vê-lo triunfante, alçado à santidade em troca de picanha.

Contra Lula, disputou o cargo presidencial aquele que, um dia, chamaram de mito: o intrépido cavaleiro da esperança, que combateria o sistema perverso. Bolsonaro, no entanto, demorou a perceber que, no Brasil, só de dança conforme a música. Por isso, o ex-militar lembra mais o personagem Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, que um paladino salvador da pátria. Dom Quixote, sim, tinha caráter, mas lutava contra moinhos de vento, oponentes demais robustos para combater-se sobre um cavalo e portando apenas uma lança. Com Jair Bolsonaro, deu-se o previsto: o sistema moeu-o como a frágeis grãos de trigo.

Dom Quixote, o amante das causas perdidas.

Imprensa, Congresso, funcionalismo público, Poder Judiciário, esfera cultural, meio artístico, universidades, movimentos de rua, youtubers e hordas de parasitas do Estado uniram-se contra o quixotesco herói brasileiro. Todos se levantaram contra o “mito”, obrigando-o a render-se ao sistema, ou nem terminaria o primeiro mandato. Um segundo, no entanto, jamais se lhe concederia. Macunaíma precisava voltar, de forma descarada, cheio de promessas vãs: remédio, moradia, cultura, saúde, picanha, cerveja. Tudo grátis! Nada de combater o sistema, só de alimentá-lo.

Tamanho cinismo chega a envergonhar. Como explicar Macunaíma ao incorruptível Mickey Mouse? Como explicar Roque Santeiro ao Súper-Homem, aquele que nunca mente? Povos distintos, heróis diferentes. Talvez por isso haja tantos macumaímas querendo viver na terra do Mickey. Nos Estados Unidos as coisas funcionam porque a moral, da qual se zomba por aqui, respeita-se por lá.

Em solo tupiniquim, onde impera a Lei de Gérson, um busca levar vantagem sobre o outro. Há muito malandro para pouco mané. Não esperem por um salvador. No Brasil há criptonita demais para a sobrevivência de súper-homens. Aqui, Macunaíma vira rei; Súper-Homem, Dom Quixote.

André Paschoal é médico e escritor.

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