
Assim que saio do consultório, costumo dar uma passadinha num café próximo. Numa dessas ocasiões, encontrei uma amiga.
—Olá! Há quanto tempo! Saudei-a.
—Oi! Você por aqui? Passeando?
—Trabalho aqui perto, por isso, virei habitué da casa. Espera por alguém?
—Não.
—Posso acompanhá-la?
—Claro. À vontade.
Sentei-me e esfreguei o rosto. Ela deve ter notado-me as feições cansadas. As dela exalavam vigor e juventude, além da sofisticada feminilidade das ladies.
Pedi, como amiúde, um café preto e o tradicional pão com tucumã e queijo coalho, típico da região. Ela já bebericava o bublle tea de framboesa predileto das cocotes do século XXI.
Papo vai, papo vem, acabamos relembrando o tal caso do DJ Yves, que agredira a ex-esposa.
—Viu aquilo? Perguntou-me.
__Vi sim.
__Que crápula, não?
__Talvez sim, mas acho que se devem apurar muito bem situações como essa. Afinal, não sabemos o motivo que o levou cometer o delito.
__Como assim? Enlouqueceu? Ele merece cadeia.
__Calma! Estão querendo cercar o rapaz por todos os lados. Já tiraram as músicas dele de todas as plataformas streaming. Não querem puni-lo, querem acabar com a vida dele. Essa moda de cancelamento vem tornando-se cada vez mais perigosa. Condenar um cidadão ao ostracismo antes de saber o que realmente o levou a tomar certas atitudes pode gerar injustiças irremediáveis.
__Você está sendo machista.
__Sério? Você procurou inteirar-se sobre a história dessa mulher? Um ex-namorado dela, certa feita, tentou atropelá-la. Então, não foi a primeira vez que ela passou por incidentes assim. Será que o problema não é ela? Áudios vazados, inclusive, revelam que a moça chantageava o artista e ameaçava matar a filha e depois cometer suicídio. Tais atitudes desestabilizam qualquer cristão.
__Culpar as mulheres pela violência que sofrem. Típico de machista escroto. Tenho nojo disso!
—Não exagere.
—Ora, poupe-me! Você usou a velha desculpa de todo agressor de mulheres.
__Não tenho o perfil. Para dizer a verdade, bati em mulher apenas uma vez na vida, numa ocasião impossível de não se perder a cabeça.
__Como assim?
—Ela me atirou um vaso.
—Nossa!
—Pois é! Passou dos limites.
—Passou. Bom… mas também precisa ver o outro lado. O que você fez para que ela agisse dessa maneira?
__Então… percebe a semelhança nos pontos de vista? Não fiz nada. Aliás, eu inventei a história do vaso. Nem me atiraram o objeto, nem bati em ninguém. Mas a sua opinião sobre o suposto episódio pareceu-me bastante verdadeira e muito parecida com a minha, com a uma pequena diferença: o sexo das vítimas.
Ela esboçou um risinho amarelo e desviou o olhar. Depois chamou o garçom. Após breve pausa, perguntou-me com voz quase inaudível:
—Aceita um croque monsieur?
__Não. Obrigado. Jantei cedo. Brinquei.
—Adoro os pratos daqui. Disse escondendo-se atrás do cardápio.
Por saber a razão da mudança no rumo da prosa, apenas sorri com o canto da boca. Depois sorvi o que restava do meu café doppio com total regozijo.
Desde então, os comentários limitaram-se-lhe às condições do tempo e aos itens do menu. Chegado o pedido, concentrou-se em comer. Jamais se vira feminista tão lacônica saboreando um croque monsieur.
André Paschoal é médico e escritor.


Genial. A moeda tem dois lados. Toda situação, tb. Necessário colocar-se no lugar do outro.
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👏👏👏 Muito bem escrito.
Sensato e educativo.
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