BOLHAS, “BEAUTIFUL PEOPLE” E CANCELAMENTOS

E se o Arthur do Val disse a verdade?

A moda do cancelamento vem alcançando níveis alarmantes. A vítima mais recente, o deputado Arthur do Val, pagou muito caro por um audio vazado em que elogia a beleza das mulheres ucranianas e diz que muitas delas são “fáceis” por serem pobres.

Teria mentido? Para os que vivem em bolhas, transitam do trabalho ao shopping, da balada à igreja, do supermercado à praia, sim. Aos que já meteram pé na lama ao menos uma vez na vida, talvez. Não há dúvida quanto à beleza das ucranianas. Com relação à hipótese de algumas serem fáceis, transfiro a resposta aos que conhecem os problemas do país.

A Ucrânia é um dos principais destinos de turismo sexual da Europa. A explicação para o fato, segundo estudiosos e o próprio governo do país, encontra-se na pobreza da população e sua feminização, nas opções limitadas de mobilidade social e num sistema de crime organizado muito ativo. A situação tornou-se ainda pior com a política de isenção de vistos com a Europa Ocidental. Inflação alta, moeda fraca, mulheres lindíssimas e fronteiras abertas. A Ucrânia tem todos os atrativos ao turismo sexual.

Os que se indignam com o famigerado áudio, seguramente, não conhecem sequer o país onde vivem, quanto mais a Ucrânia. No máximo vão às praias do Nordeste aos feriados. Será que essa gente já visitou Santo Antônio do Içá, no Amazonas? Digo isso porque já o fiz. Mal pisei na cidade, já comecei a sentir o assédio das garotas.

Os que adoram comprar em Miami já visitaram Cuba? Também o fiz. As moças de lá entregam-se por um maço de cigarros ou um sabonete. Mas pobreza real passa longe dos olhos da beautiful people. O pessoalzinho da redoma só conhece a miséria mostrada nos filmes. Nem sequer imagina que mulheres em comunidades carentes tendem a ver forasteiros com os olhos verdes da esperança. Até traficantes tornam-se bons partidos a meninas de favela.

Nas falanges do politicamente correto, reina a hipocrisia. Por incrível que pareça, aqueles que julgam a fala do deputado uma ofensa às mulheres compõem a mesma horda bolsonarista que apoia a Rússia, cujos militares estupram civis ucranianas. Já os mesmos apoiadores de Arthur do Val, que chamam Bolsonaro de genocida, ouviram um dos seus dizer que a Alemanha errou em criminalizar o nazismo. Como faca de dois gumes, tentativas de cancelamento partem de ambos os lados.

Bolhas ignoram atos. Preferem ater-se a frases, porque estas criam narrativas. Têm perfeita noção dos esforços de Jair Bolsonaro durante a pandemia no sentido de recuperar a economia e distribuir vacinas, mas preferem ligar-se em declarações infelizes do tipo “não sou coveiro”. Sabem que Kim Kataguiri, propagador de ideias liberais, nada tem de nazista. Nazismo e liberalismo são tão imiscíveis quanto água e óleo. No entanto, preferem ater-se a deslizes cometidos num estólido podcast.

Qualquer indivíduo minimamente lúcido sabe que Arthur do Val não viajou à Ucrânia à procura de turismo sexual, mas para prestar ajuda humanitária. Quem, em sã consciência, entraria em uma zona de conflito atrás de vagina fácil? Nem o maior dos maníacos sexuais. Mas um áudio privado de WhatsApp tem maior repercussão que atitudes reais, pelo menos para a patota ilibada, indefectível, que jamais teceu piadinhas infames entre amigos.

Enquanto liberais e conservadores trocam farpas, socialistas observam a direita esvair-se em cinzas, os mesmos socialistas que apoiam a Rússia, os mesmos socialistas que adoram Cuba, os mesmos socialistas responsáveis pela penúria de Santo Antônio do Içá. Tamanho desgaste dispensa qualquer tipo de campanha da oposição. Nunca se viu a esquerda tão silenciosa. Pelo andar da carruagem, o Brasil seguirá os passos da Argentina e do Chile.

O candidato que, certa vez, disse admirar Adolf Hitler em entrevista concedida à revista Playboy em 1979, que falou em mulheres “grelo-duro”, manteve relações sexuais com cabras e afirmou ter tido vontade de estuprar um colega de cela, nunca viu caminho tão aberto para o poder. Aos autoproclamados paladinos da virtude, parafraseio o poeta Augusto dos Anjos: “acostuma-te à lama que te espera”.

André Paschoal é médico e escritor.

1 Comentário

  1. Avatar de João Bosco João Bosco disse:

    Falar e escrever é fácil o difícil é morar e viver num país hipócrita como o seu.

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