
Toda vez que alguém iça a bandeira vermelha nestas terras tupiniquins, o Brasil transforma-se em um verdadeiro hospício a céu aberto.
Desta vez, quem hasteou a flâmula foi a deputada comunista Tábata Amaral, cujo projeto de distribuição “gratuita” de absorventes higiênicos para mulheres carentes obteve aprovação no Congresso.
Tudo corria às mil maravilhas até o presidente Jair Bolsonaro vetá-lo, alegando que o texto não indica a fonte do custeio. Desencadeou-se o pandemônio na imprensa, nas redes sociais e nas bancadas legislativas.
Luciano Huck falou em oportunidades iguais para pessoas que menstruam. O deputado Kim Kataguiri, autodenominado liberal, condenou o veto com veemência. Arthur do Val, parlamentar que também integra o movimento liberal MBL, publicou no Twitter: “somos um país que não tem R$ 85 milhões para distribuir absorventes para pessoas pobres, mas tem R$ 40 milhões para auxílio paletó de deputado”.
Só que o gasto público do Brasil soma 42% do PIB e, segundo avaliação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o país permitiria um gasto entre 30 e 35% do PIB. Ou seja: torramos dinheiro demais, tanto com ternos para deputados, quanto com preservativos para o povo esbaldar-se no carnaval e esquecer que paga pelos ternos desses deputados.
Cada direito que algum político cria em troca de votos demanda um novo aparato estatal para viabilizá-lo, tornando o serviço caro e ineficiente. O preço da máquina pública brasileira ultrapassa R$ 4 trilhões. Por isso somos um dos países com maior carga tributária do mundo. Direitos custam dinheiro.
Mesmo a justificativa do presidente Bolsonaro para o veto não condiz com nada que o aproxime de um político de direita. Dá a entender que basta apontar a fonte do custeio para que sancione a aberração.
Triste realidade: brasileiro acredita em almoço grátis. Mesmo os que dizem combater o socialismo, acabam apoiando-o inadvertidamente. Até a “direita” brasileira pensa a la gauche. Bate no peito com orgulho dizendo que Bolsonaro aumentou o Bolsa Família, abomina cotas raciais na universidade ao mesmo tempo que defende cotas para egressos da escola pública. Costumo chamá-la de direita cloroquina, porque adora gastar com medidas ineficazes. Este país cansa!
A cada dia, o socialismo enlaça-nos como anaconda faminta. Quanto mais aperta, mais nos mexemos; quanto mais nos mexemos, mais aperta e nos escraviza, tornando-nos cada vez mais dependentes da tutela do Estado.
Exemplos há inúmeros. O Bolsa Família, criado em 2005 para erradicar a pobreza no Brasil, iniciou com cerca de 1 milhão de favorecidos, passou a 8 milhões em 2013 e chegou a 14 milhões de beneficiários em 2021.
Sabe quando isso vai parar? Nunca! Os brasileiros já não conseguem imaginar como seriam suas vidas sem o benefício. Qualquer candidato que ouse aventar a hipótese de extinguir o programa pode considerar-se derrotado.
Quer outro? O SUS. O sistema “gratuito e de qualidade” criado em 1990, chegou de mansinho, posando de bom moço, como alternativa àqueles que, segundo opiniões, não podiam custear tratamentos médicos. De lá para cá, houve tamanho crescimento que o Leviatã hoje abarca 80% da população brasileira.
Cento e cinquenta milhões de brasileiros dependem do SUS. Essa parcela da população já não consegue vislumbrar nenhuma maneira de ter acesso a tratamentos de saúde sem a ajuda do Estado.
Citei apenas dois exemplos. Há diversos outros: educação gratuita, transporte gratuito, energia gratuita, moradia gratuita e por aí vai. Quanto mais almoço grátis os governos criam, mais as pessoas o pedem.
Poucos, todavia, percebem o engodo: não existe nada isento de custos. Para cada indivíduo que recebe algo sem pagar, outro paga por algo que não recebeu. Os que arcam com as despesas, por conseguinte, deixam de investir e poupam pouco.
Menos dinheiro nos bancos, maiores taxas de juros; juros altos, menos facilidade para abrir novos negócios; menos empreendimento, mais desemprego, menores salários, maior dependência do Estado. Uma espiral negativa para servir de deleite a qualquer socialista.
O mito do governo grátis esconde o plano perverso de poder que o economista austríaco Friedrich Hayek chamou de “caminho da servidão”. Pseudópodes do Estado ramificam-se até que nada mais exista fora dele, tornando as pessoas servas das próprias necessidades. A lei do “quem não me obedece, não come” cai como uma luva em regimes de esquerda.
Se um aplicativo surge como alternativa barata aos ônibus lotados da prefeitura, logo aparece uma lei para regulamentá-lo. Surgiu um plano de saúde baratinho como opção ao SUS? Basta obrigá-lo a oferecer coberturas dispendiosas que nem sempre interessam aos clientes.
Assim se vão encarecendo e inviabilizando os serviços privados, limitando a liberdade de escolha das pessoas e tornando a população cada vez mais dependente dos serviços públicos. O ciclo tende a chegar a um ponto onde a iniciativa privada, de tão encolhida, não consiga mais custear a festa dos direitos máximos.
Na Venezuela, subvenções estatais permitiam que se enchessem os tanques dos carros a preço de banana. A energia elétrica, até hoje subsidiada pelo governo bolivariano, beira a gratuidade. Consequência: venezuelanos chegam a passar até 12 horas por dia sem eletricidade e até 24 horas na fila dos postos de gasolina.
Onde isso vai parar? Talvez em Cuba, aonde nos guia o governo grátis. Na ilha, até a comida vem do Estado. Como não há quase iniciativa privada para bancar tanta “gratuidade”, o almoço grátis resume-se a meia-dúzia de ovos, um pouco de frango, batatas, algumas porções de café e açúcar, óleo e alguns itens de higiene. Carne só em sonho.
Mas o povo cubano, em sua maioria, agradece de joelhos pelas migalhas. Não consegue mais imaginar a vida fora do socialismo. Nos hospitais não há remédios e mulheres menstruadas (amarga ironia!) têm de improvisar buscando algodão nos postos de saúde.
Aquele Sempre Livre com abas, cujo pacote custa cerca de R$ 3,00 por aqui e pode ser pago por qualquer beneficiária do Bolsa Família, em Cuba é artigo de luxo. Pelo algodão estatal, as cubanas dizem “muchas gracias”.
André Paschoal é médico e escritor.


Estou enojada. Moro na Inglaterra e vim para o Brasil para votar. Volto pra casa amanhã com o coração pesado.
O país está dividido. Agora vamos ver do que o brasileiro é feito. Se somos ovelhas ou leões.
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