O SONHO NÃO ACABOU

Não é o fim do caminho. Embora tantos vistam luto, tantos chorem, tantos desanimem, tantos se desesperem, tantos percam o orgulho pátrio, não é o fim do caminho.

Confesso ter arrumado as malas. Já as desfiz. Também me decepcionei, mas me bateu súbito orgulho no peito, uma jactância não ufanista, não onírica, não fantasiosa, mas viva, mas nítida, mas verdadeira que me levou a permanecer por aqui.

Senti-a assim que lembrei de tantos que se mobilizaram, tantos que lutaram, tantos que procuraram informar-se e formar opiniões, tantos que se uniram em torno de uma esperança, de uma crença em um futuro melhor para o nosso país.

Orgulho-me dos que se dispuseram a propagar ideias novas, dos que chamaram mais gente, que agregaram, que debateram, que tomaram as ruas, que se deslocaram quilômetros para votar e mesmo daqueles que simplesmente se dignaram a comentar uma simples publicação nas redes sociais. Não há como medir a contribuição dessa gente. Inestimável.

Vivemos tempos difíceis. Descremos nas instituições, desconfiamos do mercado, tememos empreender, duvidamos da correção do caminho.

Não se engane, contudo. Não há dois barcos. Navegamos no mesmo, embora divididos. Sabemos que um pouco mais de peso a estibordo ou a boreste pode virá-lo e que se apenas um dos lados remar, perdemos o norte. O mar anda revolto. Tempos difíceis.

Cabe a nós ter força nos braços, coordenar movimentos, encher os pulmões e encorajar os que param, os que perdem a passada, os que desanimam, os que têm medo.

Quem não pode remar, que limpe o convés; quem não pode limpar, que cozinhe; quem não sabe cozinhar, que tome a bússola; quem se orienta mal, que pesque o almoço. Não chegaremos a lugar nenhum, no entanto, se a maioria não se mexer.
Já tarda demais a mudança dos ventos. Urge uma nova mentalidade: a da política como arte do possível, não como utopia.

O preço da plena igualdade paga-se, geralmente, com miséria e muito sangue. Quando um sistema ganha em igualdade, perde em eficiência e—mais ainda—em liberdade. Por outro lado, quanto mais livre e eficiente o sistema, mais desigual. Cabe-nos buscar o equilíbrio e lutar por ele.

Eu tenho um sonho. Imagino uma imensa classe média na base da pirâmide. Tenho absoluta convicção de que não se trata de devaneio tolo. Podemos consegui-lo, desde que haja fomento à livre iniciativa, estímulo ao investimento e ao empreendimento, combate a oligopólios, diminuição da máquina estatal e de suas burocracias que impedem a livre concorrência.

Deixemos os ricos em paz com seus ternos Armani, seus charutos Montecristo, seus champanhes Perignon. Que haja pobres também, mas poucos, e que vivam com dignidade.

Tenho como quimera uma imensa classe média instruída, bem alimentada, empregada, sadia e—por tudo isso—feliz.

Temos um país lindo, um povo alegre e pacífico. Possuímos recursos naturais de que poucos no mundo dispõem. Falta-nos o ímpeto do desenvolvimento, sempre frustrado por governos populistas, por caudilhos, por um capitalismo de compadrio ora tendendo à direita, ora à esquerda, mas nunca liberal ou plenamente democrático.

A mudança parte de nós! Cabe-nos protestar, fiscalizar, discutir, gritar, bater o pé, mas nunca com violência, nunca atentando contra a ética ou a democracia, mas unindo, mas aproximando, mas compreendendo, mas amando, mas derramando suor e lágrimas em vez de sangue.

Que Deus abençoe o povo brasileiro e que dê aos seus governantes sabedoria e humildade para retomar o caminho da virtude. Que os incentive a unir o que segregaram, a apascentar o que exaltaram e a estimular o que acomodaram.

Não perdemos a luta. Metade do país manifestou desejo de um caminho diferente de todos os outros tomados desde 1822. Não nos empenhamos em vão. Milhões de eleitores deixaram bastante claro que a nação não pertence a um partido ou a um foro internacional. O Brasil sempre foi e sempre será dos brasileiros.

André Paschoal é médico e escritor.

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