
A civilização ocidental, assim como qualquer outra de que se tem notícia, construiu-se fundamentada em três pilares: religião, língua e alta-cultura.
O senso-comum encara o juízo normativo judaico-cristão como oriundo de uma mente invisível controladora e autoritária. Engana-se. Tal juízo nasce da moral individual.
O homem já tinha em mente, por exemplo, que não devia matar, roubar ou cobiçar coisas alheias muito antes de Moisés receber as tábuas da lei. Ética e moral não vêm do espaço, mas de nós mesmos, da nossa intuição. E do ventre delas nasce a doutrina de toda nação.
Diga-se o mesmo da alta-cultura. Não é imposição de uma casta extra-humana, que regula padrões estéticos e diretrizes científicas. Pelo contrário, os padrões estéticos da sociedade e suas necessidades é que criam os pensamentos artístico e científico.
A língua comporta-se de maneira semelhante. Emana do povo e o povo cria normas que a regem, para que ela se universalize e possa ser compreendida pela maioria. Não fosse a norma—que chamamos de gramática—haveria uma miríade de dialetos, impossibilitando a comunicação além dos limites de pequenos clãs.
Em suma, religião forma-se a partir da moral que nos é inerente, a partir de crenças, medos, anseios, dúvidas, necessidades, senso de justiça e, por conseguinte, serve de matéria-prima às leis. Não há lei sem ética que lhe sirva de alicerce.
A alta-cultura transforma ética e moral em arte e ciência, depois as universaliza e aperfeiçoa-as. A língua permite que sejam compreendidas e registradas para as gerações vindouras. Assim se criou uma moral judaico-cristã duradoura, derivada de nós mesmos.
Agora suponhamos que algum monstro quisesse destruir a civilização ocidental para que, de maneira diferente, pudesse criar outra do nada. De que modo deveria agir? Simples: derrubando os três pilares.
O monstro—pasme— existe! Emana das trevas, embasado no pensamento de Antonio Gramsci e dos filósofos da Escola de Frankfurt. São esses os vetores que, atuando no mesmo sentido, vêm corroendo o cerne das três estruturas que nos sustentam como civilização.
Trata-se de uma forma deliberada de desconstrução—já em estágio avançado—atuando como um vírus que, além de agredir, combate mecanismos de defesa.
Mas como ele atua? Que estratégia utiliza? Inversão de polos. Leva as pessoas acreditar, por exemplo, que existe uma entidade despótica controlando-as, impedindo-as de praticar sexo livre, de se drogar, determinando gostos e necessidades, tornando-as escravas de padrões estético-científicos, gerindo a forma por meio da qual devam expressar-se ou comportar-se e, principalmente, levando-as a ignorar que os três pilares originam-se dos seus próprios valores.
A humanidade, por assim dizer, rebela-se contra a moral que ela mesma construiu ao longo de séculos, passando a combatê-la num suicídio coletivo.
Assassina a gramática, acusando-a de excludente, quando na verdade ela inclui; ridiculariza a arte, acusando-a de elitista, sendo que ela emana do povo; lança a ciência ao descrédito, quando na verdade ela deriva das necessidades humanas.
Todavia, o mais impressionante nesse titã voraz são os agentes que ele recruta. Quem, por exemplo, receberia a missão de destruir a arte? A própria arte (do dadaísmo ao funk carioca isso se torna cada vez mais nítido). Quem se responsabilizaria pela desconstrução da religião cristã? A própria religião cristã (vide o embate ideológico entre católicos e evangélicos, enfraquecendo-a dia a dia). Quem seria responsável pela desagregação da ciência? A própria ciência (afinal, de que se trata a militância da medicina alternativa “do bem” contra aquela “do mal” que recebe a alcunha de alopata?).
Assim age o titã. Inverte os valores. Religião vira imposição da igreja; língua, determinação de gramáticos; arte, estipulação de uma elite cultural; ciência injunção de uma indústria mercantilista.
Isso feito, lança pseudópodes, toma os meios de comunicação, a comunidade científica, a esfera política, a universidade, fazendo com que, além de destrutivo, retroalimente-se e cresça até a imortalidade. Quando isso ocorrer, dar-se-á o óbito da nossa civilização, restando-nos, ou reiniciá-la do zero, ou verter lágrimas sobre o seu túmulo. Nada mais.
Manaus, 06 de setembro de 2014.

