POBRES, AVIÕES E SOCIALISMO

Uma das maiores propagandas do PT tem sido a inclusão dos pobres no transporte aéreo. Basta percorrer-se as redes sociais para, vez por outra, encontarem-se frases do tipo “antes do PT, pobre viajava de pau-de-arara; agora viaja de avião”. Ou pior: “a elite não gosta de ver o povo viajar de avião”.

De fato pessoas mais humildes têm cada vez mais acesso a passagens aéreas. Teriam os governos de esquerda enriquecido-as?

Pensando nisso, veio-me à memória o padrão VARIG de voar, que durou até os anos 1980. A começar pelo serviço de bordo. Serviam-se canapés— torradinhas cobertas com queijo roquefort, ovas de salmão com maionese, foie gras e pequenas bolinhas de caviar com fatias de limão e palitos de churrasquinho e casquinha de siri.

Havia mais: carrinho de bebidas com diversos tipos de scotsh, gim, Campari, vodka Stolichnaya, rum cubano, champagne, cervejas de vários países e refrigerantes, além de sucos e água mineral.

E não acabava aí. Havia o carrinho de caviar e lagosta. Depois passava ainda outro, com sopas, saladas e churrasco. Para encerrar, licores digestivos. Sem falar no café da manhã com pães, bolos e ovos fritos na hora pelo cozinheiro (sim, havia um chef de cuisine a bordo).

O que houve com esse padrão de voar? A falência da VARIG deveu-se mais à intervenção governamental do que a qualquer outro fator. O governo Sarney, com o malfadado tabelamento de preços, no bom e velho estilo de economia planificada socialista, enterrou a empresa.

Com a alta do petróleo nos anos 80 e o controle dos preços pelo monopólio da PETROBRAS, os custos de operar-se naquelas condições acabaram superando as receitas, devido ao preço tabelado das passagens.

Foi nesse ínterim que a TAM, servindo barrinhas de cereal e amendoins a passageiros mal acomodados, ganhou o mercado. A empresa conseguiu sobreviver não só diminuindo custos, mas também tendo acesso privilegiado a concessões, à exploração de rotas e a slots nos aeroportos.

Com a criação da ANAC em 2005, a situação piorou. A agência criou um sistema de oligopólios dominado majoritariamente por duas empresas: GOL e TAM. A VARIG continuou operando, aos trancos e barrancos, até 2010, quando foi comprada pela GOL. Até 2009 a ANAC controlava diretamente os preços das passagens, estabelecendo um piso para as viagens internacionais.

Com o fim desse tipo de regulação, as empresas passaram a competir mais entre si e, por conseguinte, passaram a oferecer descontos a quem comprasse passagens com antecedência. Isso trouxe pessoas de mais baixa renda aos aeroportos. O resto não passa de narrativa para conquistar votos.

A nova medida, inclusive, permitiu a entrada de mais uma empresa no ramo: a AZUL, que começou a operar em 2008 e, em 2021, tornou-se líder de mercado no transporte aéreo doméstico. A nova companhia, atualmente, oferece o maior número de voos e de cidades atendidas. Ponto para o consumidor.

Temendo perder terreno, a TAM uniu-se à companhia chilena LAN, dando origem à LATAM, em 2012. Com isso, a empresa passou a prestar melhores serviços. Oferece até carta de vinhos sul-americanos nos voos internacionais. Mais um ponto para os clientes.

Menos regulação, mais concorrência; mais concorrência, mais vantagens aos usuários. Nada mais nítido. O xis da questão, no entanto, é que os preços poderiam cair mais se o governo não sobretaxasse aeroportos, não controlasse o preço dos combustíveis, nem permitisse a pseudoconcorrência oligopolista entre três companhias, regulando os preços das passagens, não diretamente, mas por meio do controle da oferta.

Empresas aéreas brasileiras trabalham com lucros baixos (em torno de 3%) devido ao alto preço dos combustíveis e às elevadas taxas aeroportuárias, além das caríssimas concessões de exploração de rotas e slots (outorgados sob licitação).

Por conseguinte, visando a garantir os lucros, as empresas aéreas tendem a cortar gastos. De quem? Do cliente. Por isso o passageiro deixou de comer crustáceos em espaçosas poltronas e, ademais de ter de viajar espremido entre dois passageiros, passou a comer amendoim sem sal.

Se o governo permitisse a entrada de empresas estrangeiras e deixasse o mercado livre, parasse de regular os preços dos combustíveis e privatizasse de vez os aeroportos, o que teríamos? Algumas empresas barateando custos em tenção de atrair mais clientes e outras oferecendo serviços mais caros, porém de melhor qualidade. Enfim, a menina dos olhos do capitalismo de livre mercado: variedade.

Mantem-se, entretanto, o nefasto sistema de oligopólio, obrigando empresas a oferecer preços baixos e operar com margem de lucro muito pequena. Qualquer percalço na economia põe as companhias no vermelho, forçando-as a pedir socorro ao governo. Este, por sua vez, por conceder o direito de exploração de rotas a poucas corporações, oferece em troca a garantia de lucro (embora baixo). Ganham ambos. Só perde o consumidor. Enfim, um cartel entre companhias aéreas e o Estado, a imagem mais patente do real socialismo, não daquele ensinado nos livros escolares.

Lembro-me da ocasião em que precisei viajar de Manaus a Santarém, rota bastante procurada aqui na Região Norte. A única empresa que disponibilizava passagens a esse destino era a antiga TAM. A companhia oferecia uma única rota: Manaus-Brasília-Santarém. Se o leitor não achou absurdo, dê uma olhadela no mapa do Brasil. Uma viagem que duraria quarenta minutos em voo direto transformou-se em uma jornada cara e extenuante de seis horas. Assim funciona o oligopólio: oferta menor, preços maiores.

De tanto cruzar os céus deste Brasil em desconfortáveis aeronaves, descobri que não posso nem sequer optar por pagar mais para receber melhor serviço. Não existe essa opção, por não haver interesse das companhias em aumentar a qualidade e oferecer um produto diferenciado, visando, assim, atrair outras classes de consumidores. O Estado garante o lucro, transformando empresários em burocratas. Eis o verdadeiro socialismo.

Para piorar, as dimensões continentais do Brasil tornam empresas aéreas indispensáveis, também porque inexistem bens substitutos (ferrovias e hidrovias). O governo guarnece o oligopólio em todas as frentes.

O termo Airbus cai como uma luva em solo tupiniquim. Os pobres nunca saíram da rodoviária. A classe média é que passou a viajar de ônibus, só que esses ônibus voam e, amiúde, oferecem bem menos conforto que os velhos paus-de-arara. Realmente o socialismo iguala as pessoas na pobreza.

André Paschoal é médico e escritor.

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