PROCURAM-SE CEGOS

Assim que me mudei para o Adrianópolis, apesar de residir no décimo sexto andar, passou a incomodar-me o ruído intermitente de um sinal de pedestres, instalado logo abaixo do meu prédio. Até hoje, a cada dois ou três minutos, ele dispara.

Pensei em qual seria a função do som desagradável, já que, para atravessar a rua em segurança, basta olhar as luzes. Na vermelha, espera-se; na verde, avança-se.

Inconformado, tentei mobilizar moradores a protocolar um requerimento na Prefeitura de Manaus, visando abolir o toque do sinal. Pouco tempo depois, descobri que era impossível. O apito destina-se aos deficientes visuais.

Passei a observar o semáforo toda vez ouvia o silvo azucrinante. Há três anos faço isso. Não vi, até agora, nenhum cego utilizando-o. Aliás, se algum aparecer, duvido que tenha suficiente confiança nos nossos educados motoristas, a ponto de arriscar-se a cruzar a via ao ouvir um mero toque.

Acendi um charuto e pus-me a divagar. No país dos direitos máximos, para que uma pessoa especial beneficie-se de um semáforo adaptado, milhares de ordinárias prejudicam-se pelo ruído dele. Isso teria simples solução: bastaria alguma alma caridosa ajudar o cego a atravessar. Caridade individual, todavia, não dá votos. Votos precisam de barulho.

Sabendo disso, um vereador manauara, recentemente, aprovou o projeto que dá direito a pacientes idosos de receberem medicamentos em casa. Escusado mencionar a necessidade de amplo e dispendioso aparato estatal para que isso se concretize. Quem paga a conta? Os ordinários.

Nenhum filho dispõe-se a buscar o medicamento dos pais? Nenhum neto o dos avós? Certamente sim. No entanto, esse tipo de ação invisível tiraria o respaldo do projeto. Melhor abafar os contras e divulgar somente os prós nos megafones da mídia. Políticos ganham notoriedade à custa de concessão de privilégios.

Por isso brotam cada vez mais vagas preferenciais em estacionamentos: gestantes, idosos, deficientes e, agora, autistas. Dá até desânimo ir aos shoppings centers e observar uma infinidade de vagas especiais vazias. Resta aos ordinários rodar, rodar e rodar.

Diante da gama infindável de direitos que o Estado outorga a certas minorias, aos ordinários, cheios de deveres, resta reivindicar ingresso no rol dos especiais. Já os especiais, vendo cada vez mais ordinários invadindo-lhes a sala, exigem mais direitos. Querem tornar-se súper-especiais. Idosos, por exemplo, têm prioridade nas filas, mas os acima de oitenta anos têm prioridade sobre os demais. Prioridade da prioridade.

Claro que alguns privilégios são justificáveis, apesar de haver sexagenários com mais vigor físico que muitos trintões. E não são poucos. Difícil é mofar nas salas de espera, diante de alguma tevê, e assistir a gestantes sambando na Marquês de Sapucaí, enquanto outras passam na nossa frente. Nessas horas, dá vontade de ingressar no grupo especial.

O anseio dos ordinários impulsiona parlamentares a aprovar novos projetos. Direitos tornaram-se moeda de troca política, por isso, multiplicam-se de tal forma que o país virou um verdadeiro hospício a céu aberto.

Constatei isso ao abrir o jornal e topar com a notícia estapafúrdia: tramita no Senado um projeto que impede a comercialização de fogos de artifício com estampido, visando proteger animais domésticos e autistas. Ambos têm baixo limiar para barulho, mas… Valei-me, Deus! O mar não está mesmo para os sãos.

Dobrei o tabloide, passei um café e segui fumando. O sinal pipiou de novo. Se irrita a mim, imagine a um autista. Mas… como assim? Que insanidade a minha! Os cegos precisam atravessar. Olhei para baixo. Não era um cego. Mas poderia ser. Qual dos dois mereceria mais a súper-especialidade? Torço pelos autistas nessa. Quem sabe tiram essa bodega de lá? Pensadores como eu gostam de silêncio. E silêncio anda cada vez mais escasso em nossos dias. Tanto que…

Mal cessou o apito, uma ambulância passou aflita. Pobres autistas! Deveríamos proibir, também, as sirenes? Até poderíamos, entretanto, cairíamos em outro problema: como abrir passagem sem um meio de avisar aos motoristas que, dentro da viatura, há um ser humano precisando de cuidados urgentes? Quem vale mais: autistas ou acidentados?

Sorvi um gole de café e soltei outra baforada. O charuto queimava as últimas folhas. Olhei a espiral de fumaça. Lamentei por não poder fumar em nenhum café, bar ou restaurante do Brasil. Há leis que proíbem o fumo nesse tipo de estabelecimento, enquanto outras permitem animais domésticos. Cheguei a ver pets até sobre as mesas. Irônica era! Tapete vermelho a animais, cartão vermelho a humanos.

Apaguei o charuto. O tempo começou a fechar. Já caia fina chuva. Encostei a vidraça da varanda quando, súbito, retumbou um trovão. Quase pus o coração pela boca. Se eu fosse um cãozinho, teria morrido. Como São Pedro pode ser tão insensível com animaizinhos indefesos?

Do jeito que as coisas andam, não demorará muito para o Ministério Público mover ação contra o santo. Um juiz dará dez dias para que ele pare de mandar chuvas com raios e trovões, caso contrário, pagará muito caro, quiçá crucificado de novo. E de cabeça para baixo! No manicômio tupiniquim, não há mais nada impossível.

André Paschoal é médico e escritor.

1 Comentário

  1. Avatar de Roque Roque disse:

    Pura verdade

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