
Depois que me casei com uma venezuelana, minha casa tornou-se espécie de ponto de parada de refugiados em trânsito. No percurso Boa Vista-Manaus-São Paulo, quem possui algum laço de amizade com ela, acaba na nossa sala, tomando um café, enquanto espera pelo voo de conexão. Nessas ocasiões, de papo fluido, pipocam histórias as mais variadas. O último desses encontros deu-se com um gineco-obstetra que decidiu tentar a vida no Brasil.
__Por que veio para cá? Perguntou-lhe minha esposa. Você não estava empreendendo na Venezuela?
__Montamos um consultório eu, minha esposa, que é pediatra, e um amigo anestesista. Estava dando cada vez mais lucro mas, a cada dia, o dinheiro valia menos. A gente trabalhava demais e o dinheiro não rendia, não dava.
—Lembro-me de quando saí de lá. A crise não estava tão forte assim, mas eu já previa o que aconteceu. A queda é repentina. O que vai bem, de repente desaba. E eu via o Brasil no mesmo caminho durante o governo Dilma. Tudo corria bem, todo mundo feliz, bastou ela se reeleger e zás! Colapso abrupto na economia.
—Pois é. Mas os brasileiros trataram logo de dar fim nessa mulher. Na Venezuela, ninguém derruba o governo.
—Maduro tem aliança com os militares.
—Claro. Coisa que o PT não tinha.
__Até tentou, ponderei, mas fracassou.
—Como anda a coisa por lá? Perguntou ela.
___Bem pior. O bolívar não vale nada. As pessoas dolarizaram artificialmente a economia. Tudo se paga em dólar. Uma cesariana, por exemplo, sai por mil dólares. Um absurdo! Nem nos Estados Unidos custa isso. Eu me perguntava: onde os venezuelanos arrumam dinheiro para pagar por procedimentos tão caros? Encontrei a resposta: os que pagam também ganham em dólar, vendendo produtos no mercado negro.
—“Bachaqueros”, afirmou minha esposa.
—O que são “bachaqueros”? Perguntei.
Ela tratou de explicar-me:
__Quando chegam produtos nos supermercados, a preços tabelados pelo governo, os donos dizem: chegaram tantas latas de óleo. Aí se forma uma fila imensa. Quando o produto acaba, o dono avisa: “acabou o óleo”. Só que não acabou. Ele vende uma quantidade para os “bachaqueros”. São pessoas que pagam gente para pegar fila e comprar determinado produto a tantos bolívares. Aí essas pessoas trazem os produtos para os “bachaqueros”, que os estocam. Uma vez estocada, a mercadoria é revendida mil vezes mais cara no mercado negro. Lucro astronômico!
—Entendi… E a saúde, como está? Perguntei a ele.
__A maioria dos médicos saiu do país, respondeu. Chile, Brasil, Espanha, Inglaterra, Colômbia.
—E os doentes?
__Não há quem os atenda. Trabalhei em um hospital público em Caracas onde não havia técnicos de enfermagem, nem enfermeiros para aplicar medicações. Também não precisava, porque não havia medicação. Uma vez eu peguei um plantão maluco desses e percebi que estava sozinho no hospital. Eu e mais oito alunos de quinto ano médico. O que eu fiz? Cheguei para os alunos e disse: aqui vocês são médicos residentes. Vamos todos atender. Assim procedemos.
—Posso imaginar a cena.
—Acho que não pode. Para você ter uma ideia, em uma das alas, um malandro sacudia a pistola exigindo falar com o médico. Fui a ele. “Minha esposa fez cesariana e está com dor”. Disse-me com voz irritada. Expliquei-lhe que até queria ajudar, mas não havia medicação no hospital. Dei-lhe uma lista do que seria necessário comprar. A coisa lá estava funcionando assim: à base de listas. Vai ser operado? Então… preciso de gelco, luvas, anestésico, adrenalina, equipo de soro, fio de sutura etc.
—E aqueles que não podiam pagar?
—Então… quando se precisava de um par de luvas para a cirurgia, pediam-se dois e guardava-se um. Assim se iam juntando as sobras para aqueles que não podiam pagar. Criamos um sistema paralelo de assistência.
De repente me deu vontade de por fogo na discussão, tanto que perguntei:
—Você tem socialistas na família?
—Infelizmente. Meu pai.
—Mas como? Com toda essa crise?
__Pois é.
—Você envia dinheiro a ele?
—Sim. E já peço para ele trocar por dólares. Lá o dinheiro desvaloriza num piscar de olhos. Eu vi uma publicação no Facebook em que um sujeito falava do preço do papel higiênico. Para comprar quatro rolos, era preciso um maço imenso de notas de bolívar. Ou seja, usar dinheiro para limpar a bunda valia mais a pena.
—Pois é, comentou minha esposa. Na última vez que eu estive em Caracas, até me espantou ver notas de bolívar dentro das lixeiras dos banheiros públicos. Estavam usando-as para limpar a bunda. Isso não é piada não. Vi com meus próprios olhos.
Rimos juntos, apesar da calamidade. Depois lancei as costumeiras farpas:
—Pois é. Mas pagar de socialista recebendo dinheiro do exterior é fácil. Basta você parar de mandar reais, que a mentalidade revolucionária vai rapidamente por água abaixo. Socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros.
Ele demonstrou certo desconforto, por isso mudei logo o rumo da prosa:
—Como foi sua vinda para o Brasil?
__Eu e minha esposa viemos por estrada, via Pacaraiama, em Roraima. Quando chegamos a Boa Vista, um policial federal logo nos reparou as feições diferenciadas e perguntou-me com que trabalhávamos na Venezuela. Respondi que éramos médicos. Ele me disse que também era médico. Anestesista. Falou que estava abrindo uma clínica na Bahia e convidou-me a trabalhar com ele. Disse-lhe que preferia não me arriscar porque ainda não possuía CRM. A polícia poderia apanhar-me. Ele ironizou e disse: “a polícia sou eu”. Ele, realmente, tinha muito poder onde vivia. Fora vereador, secretário de saúde e conhecia muita gente do judiciário local. Acabou que topamos. Como ele morava sozinho em uma casa imensa, por ser divorciado, alojou-nos em um dos quartos da mansão. Passamos a morar com ele. Também comíamos lá, por conta dele. Na clínica, responsabilizei-me, inicialmente, pelas cirurgias em ginecologia e obstetrícia. Depois me solicitaram para auxiliar um cirurgião vascular. Mais para frente, incluiram-me no chamado “projeto orelhinha”. Tratava-se de um cirurgião plástico que operava orelhas de abano. Aquilo funcionava como linha de montagem. Gerava-se muito dinheiro.
—Não tenho a menor dúvida.
—Só que eu não recebia. Na vez que eu reclamei, o dono deu-me dois mil em espécie. Para quem estava sem nada, com esposa e um bebê, já era alguma coisa. Depois disso, nada de nada.
—Vixe! Que aperto!
—Pois é. Mas aí, um cirurgião da clínica convidou-me a trabalhar com ele. Eu fui. Esse me pagava. Só que o policial descobriu e, logo que cheguei ao trabalho, pela manhã, chamou-me à sua sala aos gritos. “Você está demitido”, esbravejou.
—Mas te pagou?
—Assinou-me a carteira de trabalho como auxiliar administrativo, com salário de R$ 1200,00. Achei que receberia pelo menos isso, mas nada. Não vi cor do dinheiro.
—Isso foi trabalho escravo, pontuou minha esposa.
—Exatamente. Respondeu.
Ele tomou um gole de café e continuou:
—Hoje vivo em São Roque, no interior de São Paulo, mas trabalho em um município pequeno aqui do Amazonas. Ilegalmente. Em São Roque eu trabalhava em um supermercado por um salário mínimo, até que apareceu essa oportunidade aqui no Amazonas. No hospital, eu atendo tudo. Sou o único médico, portanto, sou pediatra, clínico, obstetra, cirurgião e até psiquiatra. Não há ninguém para me ajudar. Como eu não tenho CRM, ganho pouco, mas ainda é bem melhor que trabalhar no supermercado.
__E onde está sua família? Perguntei.
—Lá em São Roque. Eu venho ao Amazonas, trabalho um tempo, dia e noite, depois volto ver a família quando posso. Tenho medo de trabalhar ilegalmente. Posso ser preso.
__Preso não vai, disse minha esposa. Você é médico. Só não está revalidado neste país. Vai preso quem é falso médico. Isso existe. Gente que falsifica diploma e trabalha como médico. Não é o seu caso. O máximo que pode acontecer é sanção do CFM. Você pode não ser mais aceito na autarquia. Pode até ter problemas com a Polícia Federal e ser deportado. De qualquer forma, imagino que vocês vivam melhor aqui que no nosso país.
—Sem dúvida. O socialismo lá está tão avançado, que até os presentes de aniversário estão iguaizinhos aos de Cuba: shampoo e sabonete.
__Ah! Você viveu em Cuba? Perguntei.
—Sim. Estudei na Escola Latino-Americana de Medicina, junto com sua esposa.
—A economia venezuelana está a cada dia mais parecida com a de Cuba, disse minha esposa. Não há mais concessionárias de veículos. Todas deixaram o país. Os automóveis tornam-se cada vez mais velhos. As pessoas viram-se com as peças disponíveis para consertá-los. Num futuro próximo, a Venezuela terá somente carros antigos circulando, com algumas poucas Mercedes Benz dos “enchufados”, bem nos moldes de Cuba.
—“Enchufados”? Perguntei.
—São pessoas que possuem alguma ligação, direta ou indireta, com o governo chavista. Explicou. Mas, enfim, criou-se um mercado paralelo, dolarizado, como em Cuba.
—Mas em Cuba, esse mercado negro como o da Venezuela, é proibido.
Ela riu sarcasticamente e pontuou:
—Em Cuba nada se pode, tudo se faz. Você sabe disso.
Realmente eu sabia. Já estive em Cuba e tenho amigos cubanos residentes no Brasil que me contam muito do que se passa por lá.
—Quando estive em Cuba, respondi, a gente trocava euros pelos tais CUC. 1 CUC valia 1 euro, por definição do governo Castro. No mercado negro, o CUC, a peso de euro, circulava livremente. A economia de Cuba, a paralela, funcionava (e ainda funciona) em euros. A venezuelana movimenta-se em dólares.
__Não existe socialismo sem mercado negro, meu amor. Afirmou minha esposa. As pessoas que não viveram em países socialistas jamais entenderão isso. Não conseguem imaginar como os cubanos vivem com um salário mensal de 37 dólares e uma cesta básica fornecida pelo governo, a chamada “libreta”, com uma dúzia de ovos, azeite, um pouco de café (horrível, por sinal), alguns grãos, 1 quilo de arroz e açúcar. As pessoas vivem do mercado negro. Um sistema capitalista paralelo. Só assim o socialismo sustenta-se.
__Na Venezuela não é diferente. Disse o médico. O salário é até pior: 3,50 dólares mensais. Como viver com isso? Só com um mercado paralelo e com remessas vindas do exterior, no caso de quem tem familiares vivendo fora do país.
—Ano passado eu estive na minha cidade, completou minha esposa. A gente vê a crise na cara das pessoas. Aquela gente está ficando feia de tanto pegar fila debaixo de sol. E não há cosméticos para disfarçar. Muitos produtos desapareceram do mercado.
—Não é fácil, minha amiga. Disse ele. É o que eu disse: produto de beleza virou presente chique. Presentes mais ou menos são sabonete e shampoo.
—Que tristeza!
Eles se calaram por um momento e puseram-se a comer.
Aproveitei o silêncio e pus-me a pensar. Tratava-se de pessoa de boa estirpe, bem formada, um homem educado, de boa família. Gente como eu e como você, leitor. Para ele, viver nessas condições, ganhando mal, trabalhando como escravo, viajando constantemente do Oiapoque ao Chuí para ver a família e tendo trabalhado até mesmo em um supermercado em troca de um salário mínimo (um médico especialista!) oferece-lhe condições ainda melhores que na sua terra natal. Lembrei-me de como o socialismo já avançara durante o governo Dilma Rousseff. Não a tivéssemos derrubado, talvez hoje eu vivesse condições parecidas… ou piores.
Terminamos o café. Já se aproximava o horário do voo. Ofereci-lhe o banheiro para que se asseasse. Ele aceitou e partiu. Pedi a Deus que lhe concedesse melhores dias. Depois me estirei na cama e dormi, que o cansaço do dia de trabalho consumia-me o corpo. Dia afanoso, tarde instrutiva, noite serena.
André Paschoal é médico e escritor.

