
Imagens do conflito entre professores e policiais no Paraná despertaram indignação de muitos. Poucos, no entanto, têm a sensatez de ater-se aos fatos, em vez de se deixarem levar por “slogans” midiáticos chapa-branca.
Para compreender o ocorrido precisa-se conhecer como atua o movimento revolucionário—este dragão de duas cabeças que confunde a opinião das pessoas, de eruditos a bebuns do bar da esquina.
Uma das características do movimento revolucionário é a capacidade de desencadear crises, pela distribuição incontida de créditos, para depois combatê-las. Coincidentemente é o que temos hoje no Brasil. Abusou-se das benesses, distribuíram-se empréstimos a juros módicos, via BNDES e financiamentos imobiliários. O governo endividou-se em nome da “justiça social” e, em nome dela, continuará endividando-se ‘ad libitum’.
Não precisava ser nenhum grande economista para perceber que a conta, mais cedo ou mais tarde, chegaria. Pois é! Chegou! Agora o governo tem de abusar de contabilidades criativas e pedaladas fiscais, tentando empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Com isso ganha tempo.
Já sentimos a recessão e sabemos quem arcará com o saldo negativo: o trabalhador. Aí se encaixam os professores do Paraná, assim como outros milhões de brasileiros que deverão abrir mão de direitos trabalhistas e sangrarão cada vez mais com impostos.
O dragão é sagaz. Gera crises, depois apresenta-se como solução através do mesmo mecanismo que as cria. Fomenta conflitos, depois os rechaça com violência. Não importa o resultado. Importa que movimento mantenha-se ativo. Ora joga de um lado, ora do outro, de forma que vença sempre, seja qual for o placar do jogo. Vende a falsa ideia de uma oposição atuante que, a bem da verdade, nada mais é do que uma de suas cabeças. Ambos—PT e PSDB—competem de forma real (admito!) mas pelo poder, não por diferenças ideológicas.
O incidente em Curitiba foi reflexo disso. O governo federal promove a instabilidade econômica e o modo como tenta contê-la desagrada os trabalhadores. A eles sobrou a dívida, o que os deixa cegos de indignação e, portanto, vulneráveis.
Quando encontraram (vejam só!) ativistas do próprio movimento revolucionário—pai da crise—, acabaram incitados a ir às ruas. Mas toparam, de um lado, com o governo Beto Richa na figura da PM; de outro, com a “oposição” paranaense na figura da petista Gleisi Hoffmann e de militantes da CUT e do PC do B com sangue nos olhos.
Armava-se o circo. “Black blocs” furaram o bloqueio. A PM reagiu. Gleisi, sobre o carro de som, deu voz de comando: não recuar. Resultado: mais de cem feridos entre professores, militantes e policiais. Mais professores do que militantes e policiais, diga-se de passagem.
Quem ganhou? O governo, que se fortalece acusando a “oposição” de violência e a “oposição”, que se beneficia acusando o governo de “mentor da crise”. Aos professores restou servir de massa de manobra ou, na linguagem revolucionária, de “idiotas-úteis”. Estes, como sempre, pagam o pato. Acabam feridos.
O movimento segue incólume. Nunca sangra, nunca inala gás lacrimogênio, nunca lhe inflamam os olhos sprays de pimenta. Usando a estratégia de “dividir para conquistar”, joga uns contra outros, fardas contra guarda-pós, brasileiros contra brasileiros. Estes sim saem machucados e, consequentemente, enfraquecidos. Perde o povo. Ganha a revolução.
Texto de 01 de maio de 2015
André Paschoal é médico e escritor
