PROCURAREIS A VERDADE, CAMARADAS!

Aqui é Jesus. Não costumo manifestar-me assim tão diretamente, mas você não tem me entendido. Andam dizendo que eu sou de esquerda, que sou socialista. Acredite: é verdade!

Conhece Russeau, meu filho, o pai da esquerda? Segundo o seu “Mito do Bom Selvagem”, os homens nascem bons; a sociedade os corrompe. Entendeu? Não há pecado original, ou seja, eu não precisaria ter assumido a culpa pelas perversões da humanidade. Morri na cruz por ser um fora-da-lei banal, entre dois ladrões. Não sou nem nunca fui o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Isso não passa de lenda.

Eu sou socialista, meu filho. Andei entre leprosos e prostitutas. Reparti os pães. Não importa se antes os multipliquei. Esqueça essa parte. Pense apenas que eu dividi.
Lembre-se de que o ensinei ser altruísta, ajudar os pobres, dar mais do que receber. Sim, sou socialista. Mas esqueça que o comunismo permite ao homem ser mesquinho, transferindo a incumbência da generosidade ao deus Estado.
Não pense em nada disso.

A propósito, você já ouviu falar em São Marx? Sabe o que é materialismo dialético? A grosso modo, este ideólogo do socialismo concluiu que religião faz o homem conformar-se com sua própria miséria, uma vez que o leva a crer em uma recompensa futura, que só se encontra no reino dos céus.
Pois eu não creio no reino dos céus. Atrapalha a nossa causa. Quero luta de classes! A salvação está na Terra e só será alcançada por meio de revolução sangrenta. Desejo expropriações, desabastecimento, mortes. Não quero paz. Jamais daria a outra face.

Compreenda: religião é o ópio do povo. Queime a sua Bíblia. Não reze a oração que eu mesmo o ensinei. Abandone os cultos. Não me dedique uma prece sequer. Pela razão do materialismo dialético, Deus não existe.

Eu sou socialista, meu filho. Não tenho dúvidas da inexistência do meu pai. Jamais me sentei à Sua direita. Aliás, se meu pai não existe, como posso eu existir? Concluo que jamais passei pela face da Terra. Não padeci sob Pôncio Pilatos, não fui crucificado, morto e sepultado. Como sepultar o que nunca houve?

Se eu não vivi–santa ironia!–não posso ter morrido. Se eu não morri, não posso ter ressuscitado. Entendeu, meu filho? O ponto alto do cristianismo é falso. Eu sou socialista!

Agora vá e não olhe para trás. Reflita com as bênçãos de todos santos: Bakunin, Marx, Engels, Gramsci, Russeau, Lênin, Stalin, Fidel, Mao e “tutti quanti”. Todos eles passaram pelo mundo e deixaram suas marcas. Estude-os. Afinal, nada do que se escreveu sobre mim tem validade, inclusive este texto, cujo autor não existe, portanto você não pode estar lendo.

André Paschoal é médico e escritor.

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