O DIA EM QUE ME TORNEI MAIS MÉDICO

Gosto de conversar com meus pacientes na sala de ultrassom, principalmente quando percebo tratar-se de pessoa interessante. Esse era.
Tinha em torno de cinquenta anos. Parecia bem forte. Relatava um pequeno problema de saúde, nada demais, porém o sotaque castelhano atiçou-me a curiosidade. Perguntei de onde vinha.
_Cuba. Respondeu.
A resposta deixou-me de orelha em pé.
_Eu sou médico. Completou.
_Ah! Legal. Está trabalhando no interior?
Disse que sim. Em um município próximo daqui de Manaus.
_E está gostando do Brasil? Perguntei.
_Estou sim.
_Que bom. E sua família?
_Está toda em Cuba. Minha esposa, dois filhos adolescentes e minha mãe que está bem velhinha.
_Eles não podem vir, né?
_Podem, mas só por dois meses. Depois devem retornar.
_Hum. E como vão as coisas lá em Cuba?
Aparentando certo desconforto, ele respondeu em tom mais baixo:
_Bem precária. Falta de tudo. Mas estamos tentando restabelecer acordos comerciais com outros países. Com os Estados Unidos, por exemplo. É nossa esperança.
_Acha que será bom?
_Acho que sim. Se Deus quiser.
Chamou-me a atenção o “se Deus quiser”.
Ele não me parecia à vontade, portanto não insisti na conversa. Aquilo poderia prejudicar a relação médico-paciente. Se eu fosse jornalista, teria sido mais incisivo.
Quebrei o gelo perguntando sobre rumba e mambo. Disse-lhe que eu gostava de Célia Cruz.
_E o senhor sabe jogar vôlei? Continuei.
Ele sorriu.
_Sei sim.
_Cubanos são bons nesse esporte, não é?
_Somos. E também em beisebol e boxe. Futebol ainda estamos aprendendo.
_Sério? Aqui estamos desaprendendo. Brinquei.
Rimos juntos.
Dei-lhe o diagnóstico. Depois nos despedimos com um forte aperto de mão. As dele eram ásperas. Não pareciam mãos de médico.
_Prazer em conhecê-lo. Disse ele.
_Igualmente.
A ironia da história foi o cubano sendo atendido pelo brasileiro. O profissional do programa “mais médicos” do PT, que levaria atendimento humanizado a milhões de brasileiros esquecidos pelos nossos “doutores”, estava ali deitado na minha maca.
Sem dúvidas não havia ultrassom no município dele, por isso viera a Manaus.
Gostaria de ter conversado mais. Em outra situação, quem sabe? Pareceu-me boa pessoa. Falava um bom português. Desconfiei até que fosse bom médico.
Enfim, ele não tem nada com nossos atritos anti-petistas. Foi obrigado a vir para o Brasil.
Lembrei que eu também fui obrigado a vir para o Amazonas há 12 anos, deixando família e noiva em São Paulo e partindo desbravar estas ribeiras pelas quais me apaixonei.
Talvez nossas histórias assemelhem-se um pouco. Fechei os olhos e rezei por ele.
Depois toquei o dia, que a fila de espera era grande.

Texto de 09 de junho de 2015

André Paschoal é médico e escritor.

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