
É tempo de jabuticaba. Pelo menos na minha terra. Posso ver claramente, à luz da memória, caules forrados de frutinhas negras… Eu e os amigos da rua sentados debaixo da árvore, saboreando-as com ares de infinito prazer.
Pena que a gente cresce. Resta-nos correr atrás sabe-se lá de quê. Tem sempre o aluguel, o imposto de renda, a gasolina, a conta de luz…
Precisamos trocar de carro, porque o que temos saiu de linha. Há sempre uma casa nova esperando por nós, uma viagem, uma roupa, um relógio. E assim a gente segue e segue e segue atrás da tão anelada felicidade.
Há pouco, no entanto, muito pouco do que, em verdade, nos alegra: um copo de água gelada num dia de calor, uma reunião de amigos, um violão, um pequeno poema, um filme, uma paixão ardente, cheirinho de bebê…
Mas continuamos sempre adiante e para o alto, porque o planalto é a meta. Infelicidade é proibida! Para se fugir dela, não há limites. Já lançaram no mercado um celular mais moderno e com mais tecnologia do que aquele que acabamos de comprar.
Por isso andamos de lá para cá, de cá para lá… E ainda temos de garantir um futuro tranquilo, uma velhice digna. Nem pensamos que velho não se liga nessas bugigangas. Velho liga-se na vida. Demoramos tanto a perceber isso!
Perseguimos títulos acadêmicos e de nobreza, escrituras de imóveis, insistimos em jogar na loteria. Ah! Se a gente ganhasse aquela bolada! Quanta felicidade! Teríamos tudo: casa nova, carro importado, mulheres lindas… Como viver sem uma mulher linda ao nosso lado?
Certamente precisamos ganhar na mega-sena. Entremos na fila da casa lotérica, pois já dobra o quarteirão. Todo mundo sabe o que é preciso para ser feliz.
Mas é mentira. Adiamos a vida ano a ano, dia a dia, até envelhecermos. Aí descobrimos que o que queríamos, realmente, era estar à sombra da jabuticabeira com os amigos.
Amarga ironia! Por isso dizem que os velhos voltam à infância. Crescer é fingir.
(Texto de 03 de novembro de 2015)
André Paschoal é médico e escritor
